Um soldado britânico de 27 anos, que será julgado em uma corte marcial como desertor por ter se negado a voltar para a frente de batalha no Afeganistão, se transformou em símbolo da crescente oposição a esta guerra, cada vez mais impopular no Reino Unido.

Joe Glenton, primeiro soldado a se pronunciar publicamente contra a missão britânica no Afeganistão, afirma que o governo do primeiro-ministro Gordon Brown deve parar de desperdiçar vidas nesta guerra, que considera "ilegítima".

O soldado da Royal Logistic Corps compareceu pela primeira vez nesta segunda-feira perante a justiça militar em uma audiência preliminar, realizada na Base de Bulford, no condado de Wiltshire (sudoeste da Inglaterra). Glenton será julgado como desertor, acusação pela qual pode ser condenado a até dois anos de prisão.

A data do julgamento ainda não foi definida.

Glenton, que se alistou no exército em 2004, foi enviado ao Afeganistão pela primeira vez em 2006, e diz ter voltado para casa "com sentimentos misturados".

"Voltei me sentindo bastante envergonhado. Não conseguia ver o que tínhamos alcançado lá. Me sentia iludido", explicou recentemente em um ato da coalizão pacifista Stop the War, na qual agora milita.

Por isso, alega, desertou quando foi novamente convocado para o front afegão, em 2007. Durante dois anos, viveu refugiado na Austrália, mas finalmente decidiu se entregar.

Na semana passada, Glenton ocupou as manchetes depois de escrever para Brown, explicando sua posição e pedindo ao primeiro-ministro que traga as tropas britânicas no Afeganistão de volta.

"Minha principal preocupação é que o valor e a tenacidade de meus companheiros soldados se transformou em um instrumento da política externa americana", escreveu Glenton em sua carta, entregue a Brown na última quinta-feira.

"A guerra no Afeganistão não reduz o risco de terrorismo, e ao invés de melhorar a vida dos afegãos, semeia morte e devastação em seu país. O Reino Unido não tem nada que fazer ali", destacou.

"Não acho que nossa causa no Afeganistão seja justa ou correta. Eu suplico, senhor, que faça com que nossos soldados voltem para casa", pediu Glenton.

As críticas de Glenton chegam num momento em que o governo se encontra sob forte pressão devido ao alto número de baixas registrado nas últimas semanas no front afegão; some-se a isto a chuva de críticas que apontam para a falta de uma estratégia clara, quase oito anos depois do início da missão britânica.

Com 22 mortos, julho foi o mês mais mortífero para as tropas britânicas no Afeganistão desde o começo da intervenção, destinada inicialmente a combater o terrorismo internacional na esteira dos atentados de 11 de setembro de 2001 nos Estados Unidos. Desde então, o Reino Unido já perdeu 191 soldados no país, onde mantém um efetivo de 9.000 homens.

À medida que aumentavam os mortos, coincidindo com o lançamento da operação 'Garra da Pantera' contra os talibãs na província de Helmand (sul), Brown foi acusado de negligenciar as tropas, que sofrem com a falta de homens e equipamentos, principalmente helicópteros, no campo de batalha.

Em um relatório divulgado no domingo, a Comissão de Assuntos Exteriores da Câmara dos Comuns (câmara baixa do parlamento britânico) concluiu que a missão militar no Afeganistão estava muito longe de obter os resultados esperados.

"O esforço internacional no Afeganistão desde 2001 trouxe muito menos resultados do que havia prometido, e seu impacto foi consideravelmente limitado pela ausência de uma visão e de uma estratégia coerentes", indica o relatório, que termina pedindo ao exército que se concentre na questão da segurança.

Até os cidadãos, que até pouco tempo apoiavam a guerra em sua maioria, parecem ter mudado de opinião. Uma pesquisa recente mostra que 58% dos súditos da Rainha Elizabeth II considera que esta guerra está fadada ao fracasso, e que seus soldados deveriam ser retirados imediatamente do Afeganistão.

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