O rápido crescimento do Brasil nos últimos, somado a instituições que não acompanham esse movimento, cria novas oportunidades para a corrupção no país, segundo Stuart Gilman, cientista político e consultor das Nações Unidas no combate à corrupção. Há mais de 30 anos estudando o assunto, Gilman diz que o rápido desenvolvimento econômico do país é uma benção que também traz maldições.

"O país se desenvolve de forma rápida, mas as instituições não acompanham. É a oportunidade para o surgimento de novos casos de corrupção", diz.

Ainda falando especificamente sobre o caso brasileiro, o consultor da ONU diz que, no país, há sempre o risco de a "imunidade virar impunidade", referindo-se ao fato de políticos brasileiros terem privilégios quando acusados de algum crime.

Gilman está no Brasil para uma série de eventos em comemoração ao dia mundial de combate à corrupção e desembarcou em Brasília no auge dos escândalos envolvendo políticos do Distrito Federal.

Leia trechos da entrevista à BBC Brasil:
BBC Brasil - O senhor viu os vídeos do escândalo no Distrito Federal?
Gilman - Vi um deles na televisão e fiquei encantado com a cena de um cara colocando o dinheiro na meia...

Gilman - O senhor já havia visto uma cena dessas, durante os 30 anos em que estuda e trabalha com projetos anti-corrupção?
Infelizmente, sim. Houve um episódio há 20 anos em que a polícia federal americana filmou um político colocando dinheiro na cueca.

BBC Brasil - Mas suponho que, no caso americano, o político tenha sido punido, de alguma forma...

Gilman - Sim, certamente. O ponto é que nos Estados Unidos os legisladores têm imunidade apenas quando estão a caminho da sessão parlamentar. Ao contrário, são tratados como qualquer outro cidadão. É importante que imunidade não vire impunidade. Minha esperança é de que, no Brasil, uma hora o sistema Judiciário assumirá o controle. E que essas pessoas não sentirão apenas vergonha. Elas serão punidas.

A corrupção precisa ser tratada como um crime especial, pois ela representa uma forte violência contra instituições e pessoas. Porque no final das contas, o dinheiro da corrupção vem de algum lugar. Ele vem de construções mal feitas, de livros didáticos que desapareceram das escolas e de remédios que não foram distribuídos. Temos sempre a tendência de olhar para o dinheiro, quando o que está por trás desse dinheiro é que me assusta.

Por isso a corrupção deve ser tratada como um dos piores crimes, em qualquer lugar do mundo. Há poucos crimes com tanto impacto, sobre tantas pessoas, como a corrupção.

BBC Brasil - A divulgação de vídeos, como esses envolvendo o governo do Distrito Federal, por causarem mais impacto podem também ajudar mais no combate à corrupção?
Gilman - Esse é um momento crucial para o Brasil e a exibição de vídeos pode acelerar algumas mudanças. Mas os vídeos, por si só, não atuam sozinhos, claro. Eles funcionam junto com a imprensa, com o Executivo e outras instituições.

BBC Brasil - Existe algo de específico ou intrínseco à corrupção brasileira?
Gilman - A corrupção em cada país tem questões específicas. No caso brasileiro, é preciso lembrar que o país vem passando por um processo de desenvolvimento econômico acelerado. Isso é uma bênção, mas traz também algumas maldições. E uma delas é de que esse crescimento muito rápido cria oportunidades para a corrupção. A questão é se as instituições do país estão acompanhando esse crescimento. Fiquei impressionado com o trabalho da CGU (Controladoria-Geral da União), mas ainda há muito a ser feito.

BBC Brasil - Os escândalos de corrupção no Brasil estão geralmente ligados à classe política. E o financiamento público de campanha acaba sempre sendo lembrado como uma saída para o problema. O senhor concorda?
Gilman - O financiamento público de campanha pode ser uma das soluções. Mas mesmo esse mecanismo tem suas dificuldades e precisa ser muito bem discutido. Ele pressupõe, por exemplo, uma divisão do dinheiro entre os membros de um mesmo partido de forma justa. E para dividir dinheiro é preciso fazer escolhas. O financiamento público tende a ser visto como uma solução para tudo, mas se não for bem implementado, pode até estimular a corrupção.

BBC Brasil - Políticos brasileiros, mesmo envolvidos com corrupção, são reeleitos. Isso é parte do processo?
Gilman - Esse é um outro lado do problema, que precisa ser combatido com uma imprensa forte e com alfabetização. Os cidadãos vão sempre tomar suas próprias decisões, precisamos encarar esse fato. Mas essas escolhas podem ser melhores se eles tiverem acesso a informação e entenderem melhor os fatos. Quando as pessoas realmente entenderem que os políticos trabalham para elas, ficarão mais indignadas quando virem esses políticos colocando dinheiro na meia.

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