Por Niklas Pollard ESTOCOLMO (Reuters) - Dois pesquisadores norte-americanos e um japonês receberão o prêmio Nobel de Química deste ano pela descoberta da proteína de uma água-viva brilhante que faz células, tecidos e até mesmo órgãos parecerem acesos -- uma ferramenta hoje usada por milhares de cientistas no mundo todo.

O prêmio de 10 milhões de coroas suecas (1,4 milhão de dólares) reconhece Osamu Shimomura, nascido no Japão e hoje membro do Laboratório de Biologia Marinha Woods Hole (EUA), Martin Chalfie, da Universidade Columbia em Nova York, e Roger Tsien, da Universidade da Califórnia em San Diego, pelas pesquisas com a proteína fluorescente verde (GFP, na sigla em inglês).

"A proteína fluorescente verde altamente brilhante, a GFP, foi observada pela primeira vez em uma bela água-viva, a Aequorea victoria, em 1962", afirmou em um comunicado o Comitê do Nobel para Química na Academia Real Sueca de Ciências.

"Desde então, essa proteína se tornou a ferramenta mais importante usada na biociência de hoje em dia."

Shimomura isolou pela primeira vez a GFP da água-viva encontrada nos mares da América do Norte e descobriu que ela brilhava debaixo de luz ultravioleta. De 1967 a 1987, o cientista viajou todos os verões para Friday Harbor, no Estado de Washington, a fim de coletar mais de 3.000 águas-vivas por dia.

Chalfie e colegas conseguiram fazer com que bactérias como a "E. coli" e pequenos vermes como o "C. elegans" produzissem a proteína ao adicionar-lhes o gene correto. A cor verde da proteína da água-viva pode ser vista sob luz azul e ultravioleta, permitindo aos cientistas iluminarem células de tumor, rastrearem toxinas e monitorarem genes à medida que acendem e apagam.

LANTERNA INTERNA

"Hoje, podemos olhar para dentro de um animal e descobrir que um determinado gene começou a funcionar, quando começou a funcionar e quando a proteína correspondente foi fabricada e para onde foi", afirmou Chalfie em uma entrevista concedida por telefone. "Elas possuem sua própria lanterna a fim de nos dizer onde estão."

Tsien, pesquisador do Instituto Médico Howard Hughes, também usou proteínas de coral e ampliou a paleta de cores para além do verde (incluindo o amarelo, o azul e outras cores), o que permitiu aos cientistas acompanhar diferentes processos biológicos ao mesmo tempo.

Segundo Tsien, uma asma manteve-o dentro de casa quando era criança, de forma que se viu obrigado a brincar com as cores como parte dos experimentos científicos que realizava no porão.

Tsien disse estar agradecido pelo prêmio e reconheceu que outros pesquisadores da área também poderiam ter sido incluídos. "Eu sei que apenas três pessoas poderiam receber o prêmio e eu sei que o comitê precisou tomar uma decisão complicada."

Chalfie afirmou não ter sido encontrado na primeira vez em que o comitê do Nobel ligou: "Eu olhei no meu computador, no meu laptop, e descobri que havia ganhado o prêmio. Eu não percebi o telefone tocando."

A GFP vem sendo usada tanto no campo da ciência quanto no das artes. Um coelho verde fluorescente conhecido como Alba foi feito em 2000 a pedido do artista Eduardo Kac e porcos verdes que brilham foram criados para dar à luz porquinhos fluorescentes.

Como vencedores do Prêmio Nobel de Química, os três pesquisadores unem-se a cientistas famosos como Marie Curie, que também conquistou um Prêmio Nobel de Física, e Linus Pauling, agraciado em 1954.

A premiação foi criada por vontade de Alfred Nobel, o magnata da dinamite, e vem sendo conferida desde 1901.

O Nobel de Literatura deste ano será divulgado na quinta-feira. No dia seguinte, será a vez do Nobel da Paz e, na segunda-feira, do Nobel de Economia.

(Reportagem adicional de Adam Cox, Elinor Schang e Simon Johnson em Estocolmo, Michael Kahn em Londres, Tan Ee Lyn em Hong Kong, Ellen Wulfhorst em New York e Maggie Fox em Washington)

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