Os riscos representados pela desaceleração econômica nos Estados Unidos são maiores do que os representados pela inflação, afirmam analistas econômicos americanos ouvidos pela BBC Brasil. Os analistas elogiaram a decisão do Federal Reserve (Fed, como é conhecido o Banco Central americano), anunciada nesta quarta-feira, de manter a taxa básica de juros inalterada nos Estados Unidos, em 2% ao ano.

A decisão representou o fim de uma seqüência de sete cortes consecutivos na taxa.

''Foi a decisão certa, a de tirar uma pausa e esperar para ver. O mais importante foi que o Fed divulgou uma declaração que enfatiza mais as preocupações em relação ao crescimento do que com o temor inflacionário'', afirma Christian Weller, professor da Universidade de Massachusetts, em Boston, e pesquisador do instituto de pesquisas Center for American Progress.

''É a ênfase correta. Primeiro, é preciso que acertemos a situação do crescimento'', acrescenta Weller.

Em seu comunicado, o Fed afirma que tem havido uma desaceleração do mercado de trabalho americano, que ''os mercados financeiros permanecem sob forte estresse'' e que a atual contração do setor imobiliário e o aumento de preços de energia deverão ter um peso sobre o crescimento econômico nos próximos trimestres.

O documento acrescenta ainda que o Fed espera que a inflação seja moderada ao longo deste e do próximo ano, mas acrecenta que ''dados os contínuos aumentos nos preços de energia e de outras commodities'', a ''incerteza a respeito da inflação permanece elevada''.

"Mãos atadas"
Weller diz que a decisão do Fed de manter inalterada a taxa de juros demonstra que ''suas mãos estão atadas'', uma vez que, dada a atual fragilidade da economia do país, o banco prefere não correr o risco de promover novos cortes no momento, mas prefere torcer para que a situação melhore naturalmente, ainda que, dentro de alguns meses, devido ao temor inflacionário, tenha de elevar as taxas de juros.

Weller acredita que não se deve superestimar o papel dos corte de juros promovido pelo Fed, visto que ''as taxas de juros que realmente importam, as de longo prazo, que permitem investimentos em negócios e que pessoas comprem imóveis, não registraram queda, o que mostra uma certa ineficácia nas políticas do Fed''.

Para Josh Bivens, economista do Economic Policy Institute, de Washington, o problema é que ''o risco da inflação parte de fatores sobre os quais não há controle, como o mercado mundial de petróleo e os preços mundiais de alimentos. Estes fatores são precoupantes, mas não há muito que o Fed possa fazer sobre eles''.

Muito mais preocupante, comenta Bivens, é o fato de que ''foram registradas perdas de postos de trabalho em todos os meses de 2008''.

A ênfase na inflação, afirma o economista, se deve ao fato de que o Fed ''é um pouco tendencioso no que diz respeito a enfatizar a batalha contra a inflação em detrimento à batalha em manter desemprego baixo, em parte porque boa parte do 'público do Fed' são os mercados financeiros''.

Na visão de Bivens, não tomar uma ação no momento, mas alertar para os riscos da inflação é uma forma que o Fed encontrou de ''ganhar um pouco de tempo e esperar que as coisas melhorem por conta própria''.

''Não é uma medida ruim, mas eu preferiria que o Fed seguisse cortando juros. Mas, devido às fortes pressões que eles enfrentam, essa não é uma possibilidade no momento'', diz o economista.

Outro analista, Mark Bloomfield, economista do American Council for Capital Formation, de Washington, também bate na tecla de que o Fed conta com poucas opções, além daquelas a que já recorreu.

''Existem duas alavancas. Uma é a política monetária, como a de cortar juros, e a outra é a política fiscal, à qual o governo já recorreu, como no envio de cheques e no pacote econômico'', afirma.

Os comentários do economista se referem à decisão do governo Bush de pressionar por um pacote de US$ 150 bilhões, que ofereceu isenção fiscal e incentivou a compra de equipamentos para empresas e a restituição de impostos a famílias de renda mínima, através de cheques de US$ 600, enviados pelo correio a indivíduos com renda mínima inferior a US$ 3.000.

O problema, segundo Bloomfield é que em vez de usar esses cheques ''para consumir e assim estimular a economia'', elas estão usando-os ''para saldar dívidas e para pagar a gasolina que os leva ao trabalho''.

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