Desabrigados ocupam campo de golfe no Haiti

Javier Otazu. Porto Príncipe, 28 jan (EFE).- As centenas de milhares de pessoas que ficaram desabrigadas em Porto Príncipe ocuparam praticamente todo o espaço aberto da capital do Haiti, inclusive os jardins do primeiro-ministro e o campo de golfe de Petionville Club.

EFE |

Mas o Petionville Club também tem outros acampados, estes um pouco mais ilustres: os 300 e poucos soldados da 82ª Divisão Aerotransportada (paraquedistas) que ocuparam a zona de restaurante e piscina, onde antes frequentava a elite haitiana.

Junto aos soldados, um mar de barracas, toldos e lonas se estende rumo ao horizonte. O campo de golfe passa a ser agora o maior campo de desabrigados (mais de 30 mil almas, dizem) e ainda não há nome porque soaria estranho se fosse chamado de Clube de Golfe.

"Eles não nos dão problema algum, só agradecem, só querem ajuda", comenta o capitão de pára-quedistas Jeff Zabala. "Distribuímos água e alimentos a eles", tanto neste acampamento como em outros da cidade, onde se calcula haver 100 mil famílias desabrigadas.

Os americanos demarcaram discretamente seus redutos com uma fita de interdição para impedir a entrada dos refugiados, mas estes mantêm uma prudente distância.

O acampamento já começa a desenvolver seus pequenos negócios, como aconteceu quase desde o primeiro momento nessas aglomerações: enquanto alguém recarrega telefones celulares graças a um pequeno gerador (pois não há luz no campo), outra se atreve com um centro de estética do qual "faz propaganda" com um pedaço de papelão com os dizeres "Rachel Beauty Salon". Há inclusive um joalheiro.

Mas o mais notável do acampamento é o serviço evangélico que cada tarde se celebra entre as barracas e lonas. O pastor Etienne Saint Cyre, da igreja batista "Compaixão de Cristo", montou uma estrutura de luz e som, trouxe a sua banda e cada tarde, antes do pôr-do-sol, reza com os fiéis.

Dezenas de pessoas rezam e dançam, enquanto cai a noite, o acampamento ganha um ar espectral e só se ouvem as cordas dos violões e as louvações a Cristo.

O pastor não só celebra missa, mas é um autêntico líder do acampamento. Assim o tratam tanto haitianos como americanos: o capitão Zabala explica que é ele quem organiza as distribuições de alimentos dos americanos.

Os sacos de arroz, o óleo e as comidas enlatadas da USAID (órgão de cooperação dos EUA) são distribuídos pelo pastor e um grupo de jovens que ele nomeou e equipados com crachá.

Os jovens formaram comitês de segurança e de limpeza que se distribuem por todo o acampamento. Aqui não há policiais nem funcionários do Governo; o grupo de desabrigados e seu pastor atuaram como se o Estado não existisse, coisa que é quase correta no Haiti destes dias.

Não há banheiros públicos, mas o comitê de limpeza pôs cartazes "Sem xixi aqui" para evitar que o parque inteiro cheire a urina, e obriga seus habitantes a tirar o lixo em carrinhos de mão.

Como os refugiados do campo de golfe, as centenas de milhares de compatriotas que estão como eles simplesmente se organizaram da própria maneira para atender a suas necessidades mais urgentes perante um Estado literalmente derrubado no terremoto. EFE fjo/sa

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