Deputados argentinos travam duro debate sobre reforma da previdência

Buenos Aires, 6 nov (EFE).- Os deputados argentinos travam hoje um duro debate sobre o projeto do Governo de nacionalizar os fundos de aposentadoria privados, que causou uma intensa polêmica no país e repercutiu negativamente na bolsa de valores.

EFE |

O Governo confia em conseguir a aprovação na Câmara Baixa (de deputados), onde tem maioria.

No entanto, até alguns setores do governante peronismo se opõem ao projeto enviado pela Presidência de Cristina Fernández de Kirchner, que transfere ao Estado os ativos das Administradoras de Fundos de Aposentadoria e Pensão (AFJP).

"Nestes momentos de recessão mundial se requerem medidas anticíclicas, geradoras de confiança e, no entanto, se gerou mais desconfiança" com este projeto, questionou o deputado Felipe Solá, membro da bancada governista.

O legislador, que reconheceu a existência de "tensão" com seus colegas do partido no poder, é um dos peronistas "dissidentes" que votará contra da medida, junto com os legisladores das opositoras Proposta Republicana (PRO) e Coalizão Cívica (CC).

O encarregado de abrir o debate foi o titular da comissão de Previdência Social, o governista Juan Díaz Roig, que defendeu a iniciativa governamental e classificou de "solidário" o sistema estatal.

O deputado Oscar Aguai, presidente do bloco da opositora União Cívica Radical (segunda força parlamentar), considerou que os legisladores não tiveram tempo suficiente para analisar o projeto, que começou a ser debatido no mês passado em comissões parlamentares.

Porém, o titular da bancada peronista, Agustín Rossi, se mostrou satisfeito por ter "conciliado posições com blocos que não são alinhados" ao Governo e já anteciparam que votarão a favor do projeto, que afeta os cerca de US$ 30 bilhões dos fundos das AFJP.

A bancada governista aceitou, na terça-feira, mudar 15 artigos da reforma proposta pela Presidência a fim de assegurar-se o maior apoio possível à iniciativa, que, após receber o sinal verde da Câmara Baixa, deverá ser ratificada em uma votação do Senado prevista para 20 de novembro.

A dirigente da opositora Coalizão Cívica, Elisa Carrió, convocou para esta noite uma vigília em repúdio à medida enquanto durar o debate, que promete se estender por várias horas.

"Nem a bancada governista nem a da oposição acham que está se discutindo a reforma do sistema de previdência. Todos sabemos que se trata do manejo de caixa, dinheiro e poder", afirmou o deputado da CC Fernando Sánchez.

Ele advertiu sobre o possível desvio desses fundos no momento em que o Governo se prepara para enfrentar o próximo ano eleições legislativas.

"A opinião pública reivindica o controle sobre o manejo dos fundos", assinalou a analista Analía do Franco, diretora da empresa de consultoria Analogías, alinhada à postura da oposição em torno das pretensões do Governo de utilizar o dinheiro para pagar compromissos de dívida pública.

A transferência dos fundos constituirá "um roubo da poupança dos trabalhadores", afirmou ontem o deputado Federico Pinedo, de Proposta Republicana, durante um ato de rejeição ao projeto governista que contou com milhares de pessoas.

Os fundos de pensões, que contam com 9,5 milhões de filiados, estão em mãos de bancos e seguradoras de capital argentino, espanhol, holandês e americano.

As AFJP têm 55% de seus investimentos em bônus soberanos e outro 14% em ações de empresas, entre elas 14 que fazem parte do Merval, painel principal da Bolsa de Valores de Buenos Aires.

As administradoras foram obrigadas nesta semana a repatriar investimentos de US$ 600 milhões nos demais países do Mercosul (Brasil, Paraguai e Uruguai), a maior parte deles no mercado de capitais brasileiros. EFE ms/jp

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