Diego A. Agúndez.

Cabul, 13 ago (EFE).- A deputada afegã Shinkai Karokhail, uma das vozes femininas mais importantes do país, acha que a integração da mulher na vida social e política do Afeganistão é fundamental para a regeneração do Afeganistão e que isso deveria ser um fator a ser considerado nas eleições presidenciais de 20 de agosto.

"O próximo Governo do Afeganistão deveria levar a mulher em conta, incluí-la no poder político e dar peso às suas decisões. Dar a elas educação e atenção nas áreas econômica e da saúde. É preciso começar a honrar compromissos", disse hoje Karokhail.

Em entrevista à Agência Efe, Karokhail admitiu que a situação das afegãs mudou para melhor desde a queda do regime talibã. Mas denunciou que a mulher continua sendo dependente do homem e tendo problemas de pobreza e educação.

Em março, Karokhail foi parar nas manchetes dos jornais e noticiários por se opor a uma lei de autoria do presidente do país, Hamid Karzai. Segundo a legislação proposta pelo chefe de Estado, as mulheres xiitas - um grupo minoritário no país - teriam menos direitos que os homens quando levadas à Justiça.

Apesar de ter conseguido alterar o projeto, Karokhail ainda acha que as afegãs carecem de proteção legal e continuam afastadas da política.

Nos últimos dias, os candidatos à Presidência do Afeganistão, entre estes o próprio Karzai, chamaram a atenção pelas promessas para melhorar a situação das mulheres no país.

Mas ativistas como Karokhail, que preside o Centro para a Educação da Mulher Afegã, só se animam com o futuro à medida que, passo a passo, conseguem mais espaço e liberdade na conservadora sociedade afegã.

Um caminho para isso, segundo a deputada, seria a criação de leis e de uma Polícia para mulheres, o que ajudaria a eliminar o "assédio sexual" ao qual milhares de afegãs são submetidas diariamente por policiais masculinos.

"Se a lei não nos protege, quem o fará? Precisamos de uma Polícia e de leis para mulheres. Há muitos casos de mulheres assediadas sexualmente pela Polícia", disse Karokhail, de origem pashtun.

Pressionadas pela família ou, muitas vezes, por decisão própria, várias mulheres de Cabul ainda usam a burka quando saem às ruas. Mas também é comum ver mulheres que preferem vestir o hiyab (lenço).

E ainda há aquelas que se despem dos trajes ou peças típicas assim que têm uma oportunidade, como fez a jovem porta-voz de Karokhail. Encarregada de guiar a Efe pelas ruas da capital afegã até a espaçosa casa gramada da deputada, ela tirou o lenço assim que entrou no carro usado no trajeto.

Porém, apesar de a ameaça talibã não ser sentida em Cabul, os fundamentalistas mantêm, sobretudo nas regiões do sul do país que ainda controlam, um rígido cerco à liberdade feminina, proibindo várias mulheres até de estudar.

Aproximadamente 80% das afegãs continuam sem poder ler nem escrever, permanecendo em segundo plano num país onde ainda é patente o tradicional predomínio dos homens em todas as esferas da vida cotidiana.

As eleições afegãs de 2009, porém, revelaram alguns focos de liberalismo na capital, onde, até certo ponto, a participação tanto das mulheres como dos jovens - outro setor secularmente marginalizado - é estimulada.

"Deixe-me dizer minhas prioridades: mais oportunidades e mudanças na educação", declarou à Efe a porta-voz Zubaida Akbar, do Fórum para a Sociedade Civil do Afeganistão (ACSF).

Com a ACSF, Akbar quer fazer suas propostas, voltadas sobretudo à criação de oportunidades para os jovens afegãos, onde 68% da população tem menos de 25 anos, chegar aos principais candidatos.

"Não está bem definido quem são os talibãs... São estudantes do Corão, senhores da guerra, guerrilheiros? Eu não tenho inimigos, mas se queremos nosso espaço é preciso acabar com esse pensamento", disse. EFE daa/sc

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