DEPOIMENTO-Uma história da Áustria que eu não queria acreditar

Por Sylvia Westall* AMSTETTEN (Reuters) - Elisabeth Fritzl ficou em cativeiro em um cubículo sem janelas na Áustria pelo mesmo tempo que eu estou viva.

Reuters |

Quando ela escapou, contou à polícia sobre os 24 anos que passou como prisioneira sob a casa da família, período no qual ela deu à luz sete filhos de seu pai, Josef.

Coube a mim viajar à pequena cidade de Amstetten, no norte da Áustria, para contar a história. Eu duvidava de que ela era verídica.

A construção cinza de concreto abaixo da qual Fritzl, de 73 anos, escondia os seus abusos, fica a 10 minutos a pé da praça central da cidade, pavimentada com pedras claras e ornamentada com flores. Sua fachada parda localiza-se em uma movimentada estrada que leva às ricas colinas verdes.

Na mesma via, a alguns quarteirões, crianças brincavam em um jardim aberto e adultos aqueciam-se em espreguiçadeiras sob o sol.

Mas era os fundos da construção que todos queriam ver. 'É ali. Um espetáculo sanguinário', indicou-me um cinegrafista, apontando para uma vistosa rua residencial com casas enfileiradas nas cores rosa, creme e branca.

Um helicóptero sobrevoava o local e eu caminhei pela rua lotada de vans de emissoras de televisão para transmissão via satélite e jornalistas, cabos pretos e moradores pasmos olhando sobre os muros do jardim.

Eu esperava que os residentes ficassem constrangidos ao falar comigo. Mas todos queriam pronunciar-se. A todo momento.

Olhando meu notebook, as pessoas me abordavam até quando eu estava na fila para ir ao banheiro ou ajoelhada na calçada.

'Eu acho que devo tê-lo visto uma vez', sussurrou uma senhora elegantemente vestida. 'Você já viu as crianças? Como elas se parecem?', perguntou outro transeunte.

Ao lado da casa, eles se enfileiravam para aparecer em frente às câmeras.

ESTRELAS DE PAPEL

Conversei com pessoas na via onde ficava a casa de Fritzl, em uma rua cheia de bares, em uma floricultura e em um estúdio de tatuagens.

Muitos foram amistosos, como uma gerente de hotel que descobriu que eu não estava em Amstetten a passeio, mas sim para bagunçar o saguão do estabelecimento com minhas anotações.

Durante três dias, entendemos como Fritzl queimou o corpo de uma das crianças em um forno depois de ela ter morrido pouco após o nascimento. Descobrimos como ele forçou sua filha a escrever uma carta pedindo que não a procurassem. Soubemos como as paredes do porão foram decoradas com estrelas de papel.

CONCRETO REFORÇADO

No pequeno portão de metal nos fundos, um policial cansado de responder às mesmas perguntas desagradáveis me deu uma olhada repreensiva. Sim, o cubículo é lá embaixo por atrás, e não, eu não vou deixar você ver a entrada do local.

Como todos, eu queria saber como Fritzl conseguiu esconder sua filha e três das suas crianças por tanto tempo no porão especificamente construído. Ele tinha uma porta de concreto reforçado, escondida atrás de prateleiras. Em alguns lugares, o cubículo não tinha altura maior do que 1,70m.

Nas disputadas coletivas de imprensa, feitas em pequenos hotéis familiares, as autoridades pareciam abaladas. Eu senti pena do médico da família, menos à vontade do que os outros ao se inclinar e murmurar nos microfones.

Ele parecia genuinamente satisfeito ao descrever a festa de aniversário improvisada para uma das crianças na clínica, e o espantoso primeiro encontro entre as duas famílias de Fritzl.

Mas um comentário do investigador Franz Polzer foi inesperadamente revelador. Questionado sobre a relação das crianças com os pais e a filha, ele fez uma pausa antes de dizer: 'Você pode esclarecer sua pergunta?'

Eu entendi o problema. Eu já tinha rabiscado a árvore genealógica da família Fritzl em um pedaço de papel para não me confundir mais. Josef não era apenas o pai e avô das crianças, como também Elisabeth era irmã de seus filhos.

Quatro dias após chegar em Amstetten, eu estava aliviada por voltar a Viena. Eu contei isso para o meu pai ao telefone e chorei.

* Sylvia Westall começou a trabalhar como correspondente trainee para a Reuters em Londres, em 2006. Trabalhando em Berlim e Viena nos últimos oito meses, ela viajou a Amstetten para cobrir a história de Josef Fritzl, que manteve a filha em cativeiro por 24 anos e teve sete filhos com ela.

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