Os dirigentes do rico departamento de Santa Cruz, leste da Bolívia, lideram uma cruzada implacável contra o presidente Evo Morales, considerado totalitário pelos opositores, e o referendo deste domingo poderá confirmar essa postura.

Segundo uma pesquisa difundida esta semana pela empresa de consultoria privada Captura, o presidente terá 27% dos votos a seu favor e 70% contra, o que confirmaria a rejeição popular à sua gestão neste departamento autonomista.

Em entrevista à imprensa na sexta-feira, o governador Rubén Costas se mostrou seguro que tanto ele quanto os outros três colegas opositores dos departamentos de Tarija, Beni e Pando serão ratificados em seus cargos, o que permitirá avançar no aprofundamento das autonomias.

"Este povo vai ratificar seu governo, o presidente Morales vai ser revogado e isso também vai acontecer em Beni, Pando e Tarija", afirmou o entusiasmado.

Essas quatro regiões formam a zona conhecida como 'meia lua', terras prósperas e férteis, onde se encontra a riqueza agropecuária e de gás do país e que este ano aprovou estatutos de autonomia considerados ilegais pelo governo.

"Eu diria que hoje, sim, estão liderando uma cruzada contra Evo Morales", assinalou à AFP o analista político independente Carlos Valverde, recordando que a oposição é impulsionada por movimentos cívicos e não partidos políticos.

"Evo Morales quer a concentração do poder", afirma, explicando que isso impede os departamentos de obter uma maior independência administrativa e econômica.

Analistas já alertaram para o fato de que, caso se confirmem os resultados das pesquisas, o poder de Morales deixará de ser reconhecido nessa região onde, na prática, ele já tem a entrada vetada.

"Se chegarem ao extremo, os lideres regionais deixarão de enviar recursos para o governo central, o que seria bastante grave", alerta Roger Tuero, diretor do Observatório Político Internacional.

Para Tuero, as autoridades regionais, no entanto, já não têm muitas opções, pois é visível que o diálogo com o governo não avança.

Santa Cruz, 900 km a leste de La Paz, é o motor econômico da Bolívia, e representa 30% do PIB nacional.

Junto aos outros três departamentos da 'meia lua', aprovou em entre maio e junho deste ano seus estatutos de autonomia.

Por outro lado, Manfred Reyes Villa, prefeito do departamento de Cochabamba (centro) e um sério opositor de Evo Morales, sequer reconhece o referendo que será realizado neste domingo, o que poderá gerar uma situação delicada, caso a consulta o revogue de seu cargo.

"Continuarei sendo prefeito até 2009, pois fui eleito (em dezembro de 2005) até 2009", afirmou Reyes Villa, um ex-capitão de exército, consultado pela imprensa local na véspera do plebiscito.

O prefeito - com forte apoio em áreas urbanas de Cochabamba, mas resistido principalmente nas zonas produtoras de coca do Chapare, berço político do presidente Evo Morales - insistiu que o referendo revogatório é inválido porque não existe como figura legal na Constituição.

Em função disso apresentou, mesmo sem resultados, várias ações ante à justiça e tribunais eleitorais para tentar impedir o processo de referendo.

Reyes Villa - que em janeiro de 2007 já enfrentou protestos de camponeses plantadores de cocas que pediram sua renúncia - também denunciou que em seu departamento existe 17.000 casos de inscrições irregulares que faz temer uma fraude eleitoral.

Segundo Roger Tuero, caso o governo tenha que tirar Reyes Villa do poder, só vai consegui-lo pela força porque legalmente vai ser muito difícil.

Já o analista Alfonzo Román acha que o prefeito opositor deveria reconhecer os resultados que, muito provavelmente, lhe serão adversos.

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