Delegação consular viaja a local de morte de 72 no México

Representantes de Brasil, El Salvador, Honduras e Equador tentarão identificar corpos; há pelo menos 4 brasileiros entre mortos

iG São Paulo |

Uma delegação consular de representantes dos quatro países dos 72 supostos imigrantes ilegais encontrados mortos na terça-feira no Estado de Tamaulipas, nordeste do México, partiu nesta quinta-feira às 8h30 (11h30 no horário de Brasília) ao local do ataque para tentar ajudar na identificação dos corpos e tomar conhecimento do avanço das investigações. A morte dos 72 estrangeiros expôs o drama da imigração clandestina para os Estados Unidos a partir do México.

Segundo o Itamaraty, o cônsul-geral do Brasil no México, Márcio Araújo Lage, e o vice-cônsul, João Batista Zaidan Fernandes, estão na cidade mexicana de Reynosa, de onde acompanham o caso. Reynosa, que fica na fronteira com os EUA e perto do local do crime, está sendo utilizada como base do governo mexicano para as investigações. À AFP, Lage afirmou que os dois tentarão verificar os documentos encontrados com as vítimas para identificar sua nacionalidade.

AP
Os corpos de 72 homens e mulheres supostamente mortos pelo grupo Los Zetas são vistos em rancho em cidade de San Fernando
Além de Lage e Zaidan, também estão no Estado de Tamaulipas, onde fica Reynosa, diplomatas de El Salvador, Honduras e Equador. Os diplomatas são dos países dos quais seriam os imigrantes mortos, segundo o único sobrevivente do massacre , um equatoriano. Identificar os corpos "não será uma tarefa fácil, nem imediata", disse à EFE o embaixador salvadorenho no México, Hugo Carrillo.

Segundo as autoridades mexicanas, entre os 58 homens e 14 mulheres mortos, há pelo menos quatro cidadãos brasileiros , informou a chancelaria mexicana e o Itamaraty na quarta-feira. Ainda, porém, não se sabe a identidade ou o sexo das vítimas. A embaixada de El Salvador no México indicou, por sua vez, que ainda não há "dados confirmados" sobre os salvadorenhos mortos.

Os corpos foram descobertos após o único sobrevivente do massacre, o equatoriano Luis Fredy Lala Pomavilla , de 18 anos, ter-se apresentado à Marinha do México para pedir socorro, informou na quarta-feira o porta-voz do Conselho de Segurança mexicano, Alejandro Poire. Pomavilla, que está em um hospital de Matamoros e receberá proteção do Ministério Público do México, contou ter fingido de morto em meio aos corpos dos outros imigrantes para escapar.

Fuga

Segundo o depoimento do sobrevivente, os estrangeiros, que seriam imigrantes ilegais tentando cruzar a fronteira dos Estados Unidos, foram sequestrados por um grupo armado ligado ao tráfico de drogas. Os homens, que disseram pertencer ao grupo Los Zetas, teriam decidido matar os imigrantes após eles terem se recusado a trabalhar para sua organização.

Ferido, Pomavilla conseguiu fugir e alertou a Marinha, que se dirigiu à fazendo perto de San Fernando e a invadiu em uma operação acompanhada por um ataque aéreo. Houve troca de tiros com suspeitos e três atiradores foram mortos, além de um militar. Uma pessoa foi presa. Além dos 72 corpos, também foram encontrados armas, munições e uniformes. Quatro caminhões também foram apreendidos, um deles com placa clonada do Ministério da Defesa.

O sobrevivente contou a um funcionário da procuradoria-geral de Tamaulipas que o ataque ocorreu quando o grupo de imigrantes ilegais se deslocava de um rancho a outro e foi interceptado por homens armados em veículos. O indivíduos ofereceram trabalho de pistoleiro aos homens do grupo por US$ 1 mil dólares quinzenais e, ao ouvir a negativa, começaram a disparar contra todos.

Repercussão

O presidente mexicano, Felipe Calderón, condenou "energicamente" o massacre dos 72 imigrantes. "O presidente Felipe Calderón condena energicamente os fatos nos quais perderam a vida 72 pessoas, supostamente imigrantes", assinala um comunicado oficial da presidência, que enfatiza que essa matança aconteceu "dentro de uma luta violenta entre o cartel do Golfo e seus ex-aliados, Los Zetas".

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Cartéis de drogas do México contornam a ofensiva do Estado e expandem atividade por meio de alianças

O Estado de Tamaulipas é cenário de grandes disputas entre o cartel do narcotráfico Golfo e seus antigos aliados Los Zetas, liderados por soldados de elite desertores que as autoridades acusam de cometer massacres e praticar sequestros em massa de imigrantes ilegais.

"Eles recorrem à extorsão e ao sequestro de imigrantes como mecanismo de financiamento e de recrutamento por estarem enfrentando adversidades para abastecer-se de recursos e de pessoas", acrescenta o texto, que atribuiu esse enfraquecimento dos carteis às ações do governo.

Em 2009, a Comissão de Direitos Humanos do governo estimou que 10 mil imigrantes, a maioria centro-americanos, foram sequestrados no México e os sobreviventes identificaram seus captores como membros de Los Zetas. Calcula-se que, a cada ano, quase 300 mil imigrantes ilegais cruzem a fronteira sul do México com a intenção de chegar aos EUA. Muitos deles são vítimas de extorsão, roubo, estupro e sequestro.

O governo do México mobilizou 50 mil militares para combater os cartéis. A violência do narcotráfico causou mais de 28 mil mortes desde o final de 2006.

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Presidente mexicano, Felipe Calderón, lançou guerra contra o narcotráfico logo após posse
Tamaulipas vive uma onda de violência que incluiu, no final de junho o assassinato de um candidato ao governo, por um comando armado, a seis dias das eleições.

Nos últimos dois meses e meio foram registradas no México outras duas grandes descobertas de corpos, em fossas clandestinas que as autoridades acreditam terem sido usadas por pistoleiros do narcotráfico para desfazer-se dos corpos de inimigos.

Em 7 de junho foram retirados 55 corpos de uma vala junto à mina da histórica aldeia de Taxco (sul) enquanto que no dia 24 de julho foram localizados mais 51 em outras nove fossas no estado de Nuevo León (norte), que também está sendo disputado pelo Cartel do Golfo e Los Zetas.

* Com AFP, EFE e BBC

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