Debate sobre segurança na Europa aumenta divergências dentro da OSCE

Luis Lidón Lehnhoff.

EFE |

Helsinque, 4 dez (EFE) - O debate sobre a reforma da segurança européia, proposto por França e Rússia, aumentou hoje a divisão no seio da Organização para a Segurança e Cooperação na Europa (OSCE) entre os países que consideram que a iniciativa é positiva e os que a vêem com reservas.

O primeiro dia da reunião ministerial em Helsinque da organização esteve marcado pela idéia lançada pelo presidente francês, Nicolas Sarkozy, e pelo governante russo, Dmitri Medvedev, sobre um novo pacto de segurança que se distancie das premissas da Guerra Fria.

A proposta foi acolhida com divisão de opiniões, o que podia ser constatado nos discursos dos chefes das delegações, que deixaram entrever que grande parte dos países do Leste Europeu, Reino Unido e Estados Unidos acolhiam a idéia com cautela e reservas, enquanto França, Alemanha, Itália e Espanha, entre outros, eram favoráveis.

O ministro das Relações Exteriores da Alemanha, Frank-Walter Steinmeier, defendeu durante seu discurso a idéia de uma reflexão sobre como "desenvolver mais o sistema de segurança europeu", enquanto Miguel Ángel Moratinos, chanceler da Espanha, pediu uma conferência para "construir a OSCE do século XXI".

"A consideração de novas idéias não deve nos distrair de nosso compromisso de aplicar os princípios fundadores da OSCE", afirmou o subsecretário de Estado para Assuntos Políticos dos EUA, William Burns, que destacou aos delegados a necessidade de potenciar "a arquitetura de segurança" existente.

"Não precisamos de novas instituições para resolver as coisas", afirmou taxativamente na reunião o ministro de Exteriores holandês, Maxime Verhagen, "mas de mais vontade política".

O finlandês Alexander Stubb, presidente de turno da OSCE, afirmou aos jornalistas que, durante as conversas no almoço de trabalho, os participantes estiveram "abertos à idéia" da reforma da segurança européia esboçada pelo chanceler russo, Serguei Lavrov.

"A esta altura do debate há mais perguntas do que respostas", acrescentou Stubb, ressaltando que é uma idéia "em uma fase muito inicial" e que ainda não há "nada de concreto sobre a mesa".

"Muitos de nós estamos satisfeitos com o atual sistema de segurança, com a ONU, a Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte) e a OSCE, mas há outros que consideram que é preciso haver um debate claro sobre seu futuro", explicou Stubb em relação às divergências.

O presidente da OSCE também explicou que há "divergências" sobre a data e o conteúdo da reunião sobre segurança na Europa, cujos promotores esperam que aconteça em 2009.

"Muitos dos membros consideram que antes de organizar uma cúpula, devemos estar certos sobre o que exatamente vamos discutir", afirmou o finlandês.

"Discutimos o futuro da segurança européia em um ambiente de amizade, de forma aberta e franca", resumiu.

As divisões internas na organização, principalmente as diferenças entre os países ocidentais e a Rússia, impedem, desde 2002, a adoção de um documento final à conclusão das reuniões ministeriais anuais.

As decisões na OSCE são adotadas por unanimidade, pelo que é muito complicado conseguir o consenso.

A Rússia afirma que a organização não é neutra e a qualifica de instrumento dos países ocidentais para aumentar sua influência no espaço ex-soviético.

As divergências aumentaram mais ainda nos últimos anos, com a autoproclamada independência do Kosovo, apoiada pelo Ocidente e rejeitada por Rússia e Sérvia, ou a idéia do Sistema de Defesa Nacional dos EUA na Polônia e na República Tcheca, antigos países do Pacto de Varsóvia.

Somou-se a isso o conflito entre Geórgia e Rússia sobre as regiões separatistas da Ossétia do Sul e da Abkházia, que foi o estopim do debate sobre segurança que ocupa os ministros da OSCE, e a discussão sobre a inclusão da Ucrânia e da Geórgia à Otan, a qual o Kremlin rejeita.

Nesta situação, a Presidência finlandesa apelou para o "espírito de Helsinque", em referência ao processo que teve início em 1975 e que levou ao degelo das relações entre EUA e União Soviética durante a Guerra Fria.

Na sexta-feira está previsto um discurso do ministro de Exteriores russo, que deverá dar alguns detalhes sobre a proposta da Rússia para a segurança européia. EFE ll/db

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