Dar ElHanoun, uma aldeia árabe que insiste em existir

Ana Cárdenes Dar ElHanoun (Israel), 3 jul (EFE).- Para a geografia oficial israelense, a aldeia árabe de Dar ElHanoun não existe - e por isso o local não tem sequer eletricidade -, mas um punhado de casas acolhe uma centena de pessoas que lutam para que alguém escreva seu nome no mapa.

EFE |

As torres de alta tensão passam a menos de um quilômetro desta localidade situada na região de Wadi Ara, ao sul da Galiléia, e são vistas das janelas das poucas casas que foram erguidas na aldeia, mas sem deixar qualquer eletricidade.

Também não há em Dar ElHanoun fornecimento público de água, coleta de lixo, correios, centro médico, escola, estradas asfaltadas, linhas telefônicas, ou qualquer sinal de que o local seja habitado.

No entanto, Dar ElHanoun existia muito antes da fundação do Estado de Israel, e algumas pessoas vivem na aldeia há quase 80 anos. Suas terras foram compradas pelos moradores durante o Mandato Britânico, e os documentos provam que o vilarejo nasceu em 1925.

Mas o Governo israelense se nega a reconhecer a aldeia, e assegura que isso não acontecerá, porque, por "motivos ambientais", não é possível autorizar "novas localidades" na região.

Os argumentos ambientais não impediram, no entanto, que Israel autorizasse nos últimos anos o estabelecimento nesta mesma região de comunidades exclusivamente judaicas, como Mitzpe Ilan, que foram legalizadas e que têm todos os serviços e direitos que o Estado judeu nega à aldeia árabe-israelense de Dar ElHanoun.

"Eu nasci aqui há 52 anos", diz apontando para uma velha casa de pedra Mustafá Abu Hillal, um eletricista que faz parte do Comitê Internacional por Dar ElHanoun, que luta por seu reconhecido.

"Sempre vivemos aqui. Até os anos 70 podíamos construir casas, mas depois a região foi declarada área de terreno agrícola e desde então se negam a assumir que existimos", diz Mustafá enquanto mostra a aldeia em uma fotografia aérea que, assegura, ser de 1949.

O morador afirma que a intenção do Governo israelense é impedir que as comunidades árabes cresçam e se unam umas às outras, motivo pelo qual incentiva a criação de comunidades judaicas em Wadi Ara, área com uma importante população árabe que optou por ficar em suas terras após o nascimento de Israel, em 1948.

"Estão construindo não somente povoados, mas cidades inteiras judaicas ao nosso redor", assegura.

Os moradores de Dar ElHanoun pagaram de seus próprios bolsos os encanamentos que lhes permitem obter água de um poço particular, e instalaram painéis solares para poder levar uma vida um pouco mais normal, mas são testemunhas de como seus filhos abandonam um local condenado a não existir.

Há sete anos, um grupo de voluntários judeus e árabes se transferiu à aldeia para asfaltar a praça e parte do acidentado caminho que leva a sua entrada.

Mas o sonho de se parecer um pouco mais com um povoado dos dias atuais - e não dos anos vinte - não durou muito tempo. Há seis meses, funcionários públicos acompanhados de uma escavadeira e protegidos por uma centena de policiais destruíram a estrada, como se, por não existir oficialmente, seus moradores não tivessem o direito de pisar no asfalto, mas somente no pó e no barro.

"A história do nosso vilarejo é mais uma prova do brutal racismo que existe em Israel. Eles não conseguem tolerar nossa existência", diz um amargurado Mustafá.

O morador de Dar ElHanoun afirma que, "infelizmente", não se sente israelense, após ter passado a metade de sua vida lutando contra seu próprio Estado e de ter uma ordem de demolição permanente ameaçando seu lar.

"Como poderia reconhecer as existência deles se eles não reconhecem a minha existência?", pergunta Mustafá, que acrescenta que esses árabes não são tratados como "cidadãos de segunda categoria, mas de terceira".

Esta situação não é excepcional, afirma Uri Zackhem, ativista israelense e membro do Comitê Internacional de Dar ElHanoun.

"Cerca de 150 mil árabes-israelenses vivem em povoados não reconhecidos pelo Estado, a maioria deles em localidades beduínas do Neguev", assegura Zackhem.

"Ainda há em Israel uma política sistemática para expulsar os árabes, mas como isso não é possível, eles tentam limitar os lugares onde podem viver", acrescenta.

"Se os moradores de Dar ElHanoun fossem judeus, este seria um povoado próspero", afirma Zackhem. EFE aca/mh

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