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Cúpula é chance para América Latina discutir fase complicada

Um grupo de 29 chefes de Estado da América Latina e do Caribe reúne-se nesta terça-feira na Bahia para uma série de discussões cujo tema central é a integração e o desenvolvimento da região.

BBC Brasil |

Segundo especialistas, o encontro de dois dias não poderia acontecer em momento mais apropriado: em meio a desentendimentos entre vizinhos e frente a uma grave crise financeira global.

O Brasil, principal economia da região, tem questões diplomáticas importantes pendentes com Bolívia, Equador e Paraguai. Isso sem falar na falta de sintonia com a Argentina no que diz respeito à Rodada Doha de comércio internacional e aos tradicionais impasses do Mercosul.

Os conflitos vão além da esfera brasileira. Uruguai e Argentina, por exemplo, não conseguem chegar a um acordo sobre o próximo representante da Unasul (União de Nações Sul-Americanas). O governo uruguaio chega a considerar a hipótese de abandonar o grupo caso a Argentina insista na idéia de colocar o ex-presidente Néstor Kirchner como candidato a secretário-geral do grupo.

Argentina e Uruguai vivem há dois anos uma disputa em torno da construção de uma fábrica de papel e celulose à beira do rio Uruguai, limite entre os dois países. A Argentina, que é contra o projeto, levou o assunto à Corte Internacional de Haia.

Fase complicada

"Do ponto de vista político, a situação nunca esteve tão complicada na região", diz a economista Sandra Polónia Rios, da Ecostrat Consultores.

Segundo ela, existe uma dicotomia entre o ambiente político e econômico na região: enquanto o comércio e os investimentos entre latinos têm crescido significativamente, a integração política passa por sérias dificuldades.

EFE
Raúl Castro chega à Costa do Sauípe

Na avaliação de Sandra, a maior projeção política e econômica do Brasil fez aumentar a percepção, entre os vizinhos, de que é o Brasil quem tem de ceder. "Esses países passaram a exigir mais do Brasil e a questionar sua liderança", diz.

O professor Williams Gonçalves, do Departamento de Relações Internacionais da Universidade Federal Fluminense (UFF) diz que a situação tende a piorar em 2009, em função da crise financeira.

"Vão faltar recursos para cumprir programas sociais e, além disso, comércio e investimentos não crescerão na mesma velocidade. A tendência é de relações mais tensas", diz o professor da UFF.

Oportunidade

Gonçalves vê a Cúpula como uma oportunidade para lidar com esses percalços "de frente".

"O encontro não vai resolver os problemas, mas é uma chance para os mandatários reafirmarem certos compromissos", diz.

A idéia da Cúpula da América Latina e do Caribe (Calc) partiu do presidente Lula e foi apresentada aos outros líderes da região em fevereiro - antes, portanto, do agravamento da crise financeira.

O diretor do Departamento de Aladi (Associação Latino-americana de Integração) do Itamaraty, Paulo Roberto França, diz que não houve uma motivação pontual, mas sim de "reforçar o diálogo".

Segundo ele, os 33 países representados na Cúpula estão trabalhando em uma declaração conjunta, que será divulgada durante o encontro. Entre os temas estão a crise financeira, energia e alimentos.

França negou que a Cúpula seja um contraponto à Área de Livre Comércio das Américas (Alca), iniciativa da qual os Estados Unidos fazem parte. "A Calc não é contraponto a nada. Nossa agenda é positiva", disse ele.

Há dois meses, durante visita a Cuba, o presidente Lula disse que a Cúpula seria a primeira vez que os países da região sentariam juntos "sem a interferência de ninguém".

Ainda não se sabe, porém, se a Calc se transformará em fórum permanente, com uma agenda própria. "Estamos estudando a possibilidade", diz França.

Agenda

Os próximos dois dias vão ser movimentados na Costa do Sauípe. Além da Calc, acontece ainda a Cúpula de Chefes de Estado do Mercosul, além de reuniões do Grupo do Rio e da Unasul.

Na reunião do Mercosul, os mandatários vão aprovar ou não a proposta de criação do Código Aduaneiro e a extinção da cobrança múltipla da Tarifa Externa Comum (TEC).

Já na reunião do Grupo do Rio será formalizada a entrada de Cuba como membro permanente. Criado em 1986, o grupo tem hoje a participação de 19 países da América Latina e do Caribe.

Por fim, os membros da Unasul terão de chegar a um consenso sobre o próximo secretário-geral do bloco, o que depende basicamente de um entendimento entre Uruguai e Argentina.

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