Cúpula do G20 abrirá caminho para novo sistema financeiro mundial

César Muñoz Acebes. Washington, 14 nov (EFE).- A cúpula que reunirá esta semana em Washington os chefes de Estado e de Governo das principais economias do mundo visa a iniciar a reforma do sistema financeiro em mais de meio século, mas não produzirá mudanças imediatas, segundo os analistas.

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Assim como nos anos 1940, a reunião acontecerá em clima de consenso sobre a necessidade de prevenir imprudências nas instituições financeiras, que causaram a maior crise dos mercados desde a Grande Depressão.

A questão é como fazer isso. Durante a Cúpula do Grupo dos Vinte (G20, que reúne os países mais ricos e os principais emergentes), previsivelmente serão adotadas apenas uma série de princípios, amplos e vagos, além de uma agenda de encontros futuros.

"Será útil, mas não acho que levará a ações concretas importantes a curto prazo", disse à Agência Efe o historiador Richard Sylla, da Universidade de Nova York. "Será uma prévia do que irá acontecer nos próximos dois ou três anos", acrescentou.

Alguns analistas batizaram a cúpula de "Bretton Woods 2", em alusão à reunião nesta pequena cidade do estado americano de New Hampshire, em 1944, na qual os países aliados durante a Segunda Guerra Mundial criaram o Fundo Monetário Internacional (FMI) e o Banco Mundial.

O encontro de agora e o de então compartilham o mesmo espírito de multilateralismo e a ciência que medidas em nível nacional não podem resolver uma crise em um sistema financeiro globalizado.

No entanto, as diferenças também são vastas. Bretton Woods aconteceu após dois anos de trabalhos preparatórios, enquanto esta cúpula foi improvisada em praticamente duas semanas.

Além disso, o presidente eleito dos Estados Unidos, Barack Obama, não participará da reunião, "o que reforça a idéia de que esta será uma reunião preliminar", segundo o analista William Cline, do Instituto Peterson, antigo Instituto de Economia Internacional.

A cúpula foi idéia do presidente da França, Nicolas Sarkozy, que disse que o encontro deveria acontecer nos EUA pelo fato de este país estar no epicentro da crise.

O Governo do atual presidente dos EUA, George W. Bush, aceitou a proposta, mas não demonstrou grande entusiasmo a respeito e tentou minimizar as expectativas sobre seus resultados.

"Sarkozy apóia um processo de regulação dirigido em nível internacional, ao qual os EUA resistem", opinou Cline.

As autoridades dos EUA são a favor da colaboração com outros países, como demonstrou especialmente o Federal Reserve (Fed, banco central americano) ao coordenar com nações avançadas e em desenvolvimento medidas para dar liquidez aos mercados, mas não parecem dispostas a seguir em frente.

O Governo dos EUA "está pronto para cooperar, mas não para ceder poder a uma autoridade internacional de regulação", disse Desmond Lachman, ex-alto funcionário do FMI.

A função do FMI frente à crise será um dos temas principais em debate na cúpula.

O FMI entregará aos chefes de Estado e de Governo reunidos em Washington um relatório no qual analisará as lições da crise financeira.

Além desse papel de assessoria, o FMI retomou sua tarefa tradicional de credor de países à beira da bancarrota.

Islândia e outros países do Leste Europeu já bateram na porta do FMI, mas se espera que essa lista ainda aumente.

Após anos praticamente sem clientes, a dúvida agora é se os US$ 250 bilhões do FMI serão suficientes para todos.

Durante a cúpula, poderia ser negociado algum mecanismo para que o FMI possa obter crédito rápido de países com reservas colossais, como China e Japão, segundo Cline.

Alguns analistas chegaram a sugerir a transformação do FMI em um "super-FMI" como uma espécie de regulador internacional, mas o conceito também tem detratores.

"Sou muito cético quanto isso", disse Lachman.

"O FMI não se descuidou da crise, não alertou sobre o perigo", declarou Lachman, por isso, em sua opinião, não seria sensato transformar o FMI em um mega-supervisor.

Outros assuntos que a União Européia (UE) colocará sobre a mesa na cúpula são a supervisão das agências de classificação de risco, a harmonização das normas de contabilidade e regras para forçar os bancos a manterem mais reservas. EFE cma/wr/fr

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