Doha, 2 dez (EFE).- A conferência da ONU sobre o financiamento ao desenvolvimento, que acontece em Doha (Catar), terminou hoje com um reconhecimento às dificuldades na ajuda aos países mais pobres e com críticas das ONG aos compromissos insuficientes assumidos pela comunidade internacional.

Ao longo de quatro dias, representantes de aproximadamente 70 países se reuniram para revisar os mecanismos estipulados em 2002, em uma cúpula no México, sobre o financiamento ao desenvolvimento.

Na reunião no Catar, marcada pela baixa participação de chefes de Estado e de Governo, os destaques foram a presença de líderes como o presidente da França, Nicolas Sarkozy, e seu colega iraniano, Mahmoud Ahmadinejad, além do barulho feito por algumas entidades civis, que classificaram como fraco o comunicado final do encontro.

Com a crise financeira mundial como pano de fundo, um dos principais pontos do comunicado da conferência em Doha foi o pedido para que a participação dos países em desenvolvimento nas instituições financeiras internacionais seja ampliada.

Especificamente, o assunto da governança foi um dos temas sobre os quais União Européia (UE) e Estados Unidos mais divergiram, embora a chefe da delegação americana, Henrietta Fore, tenha negado as diferenças de opinião.

Segundo Fore, os EUA não discordam da UE e do chamado G77 - que reúne a maioria das nações em desenvolvimento - quanto à discussão da crise financeira fora do G20, na cúpula que acontecerá em abril próximo, na cidade de Londres.

Já para a diretora-geral da organização humanitária Intermón-Oxfam, Ariane Harpa, o futuro da ajuda às nações em desenvolvimento depende, em parte, da postura que for adotada pelo presidente eleito dos EUA, o democrata Barack Obama.

Por telefone, Harpa explicou à Agência Efe que os EUA se opuseram ao uso de uma linguagem mais específica em relação ao alcance de determinados compromissos e bloqueou avanços em questões ambientais e propostas de governança.

Apesar das críticas das ONGs, Heidemarie Wieczorek-Zeul, enviada especial do secretário-geral da ONU, Bank Ki-moon, considerou a cúpula um sucesso, já que "mostrou que o mundo permanece unido frente à crise econômica".

Para a emissária, prova disso é que, em crises econômicas anteriores, a ajuda ao desenvolvimento foi cortada, ao contrário de agora, ocasião em que os países demonstraram ser "contrários à sua redução".

No comunicado final, os participantes da conferência também ressaltaram a necessidade de uma reforma tributária e pediram o fim das negociações da Rodada de Doha, que acontecem no âmbito da Organização Mundial do Comércio (OMC).

O texto reitera ainda a importância de os países industrializados cumprirem a meta de doar 0,7% de seu Produto Interno Bruto (PIB) à ajuda ao desenvolvimento.

Sobre esse tema, a diretora-geral da Intermón-Oxfam reclamou que a comunidade internacional mantém uma posição "bastante relaxada quanto aos compromissos de ajuda".

"Há referências a 0,7%, mas não referências a um calendário", frisou Harpam, que destacou que "os passos" para a ajuda chegar a esse nível acabam ficando "ao livre arbítrio dos países".

A esse respeito, o comunicado final da cúpula reconhece que, entre 2006 e 2007, a ajuda oficial ao desenvolvimento diminui, e que "ainda é preciso um grande esforço" para o alcance dos Objetivos do Milênio relacionados à erradicação da pobreza.

Outro ponto do documento de Doha é o consenso sobre o aumento do fluxo de investimentos estrangeiros diretos nos países pobres.

Entre as propostas apresentadas na cúpula, destacou-se a iniciativa espanhola para a nomeação de um alto representante da ONU encarregado de coordenar as políticas de cooperação dos países mais pobres. EFE am/sc

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