Cultura e história do tráfico se espalham pelo México

O prédio da Secretaria de Defesa Nacional, na Cidade do México, abriga um pequeno museu, fechado para o público, que faz uma radiografia da história e da cultura do narcotráfico no país, que já se espalha pela classe média mexicana. Entre os objetos expostos estão uma arma Colt .

BBC Brasil |

38 de ouro incrustrada com esmeraldas, que pertenceu ao líder do cartel de Chihuahua, Amado Carrillo; uma camiseta com blindagem dupla na área que cobre o coração, que foi do líder do cartel do Golfo do México, Osiel Cárdenas.

Além de objetos inusitados em ouro e roupas extravagantes, há também altares para a Virgem de Guadalupe e a Jesús Malverde, um santo polêmico, originário da região de Sinaloa.

Foi em Sinaloa que, nos anos 50, começaram as plantações de maconha e papoula e também o tráfico de drogas em grande escala para os Estados Unidos.

O culto a Malverde estabelece o que pode ser considerado como justificativa para o tráfico de drogas no México, de que a lei e a justiça não caminhanm lado a lado.

Ladrão
O mito afirma que Malverde era um ladrão do século 19, que se cobria com folhas de árvores para passar despercebido (daí o nome "mal-verde"). O ladrão foi preso pela polícia depois da delação de um amigo, enforcado e o padre se recusou a encomendar o corpo e não permitiu que o bandido tivesse um funeral católico.

O enterro foi feito por pessoas comuns, perto de uma estrada.

No local, atualmente há uma capela, apesar de o culto a Malverde não ser reconhecido pela Igreja Católica. Os fiéis levam objetos roubados à capela e pedem que Malverde resolva alguma injustiça.

Os traficantes de drogas mexicanos adotaram Malverde como santo e financiam capelas para ele. Muitos tatuavam a imagem do homem de bigodes nos braços.

O culto a Malverde era tão forte que, nos anos 90, a polícia americana de combate ao narcotráfico, DEA, interrogava todas as pessoas que tinham a tatuagem do ladrão ou de símbolos associados a ele.

Cinema e música
Todas as imagens ligadas ao narcotráfico acabaram se transformando em uma espécie de cultura paralela. Músicas e filmes sobre narcotraficantes estão proibidos em estações de rádio e nos cinemas. Mas, eles podem ser encontrados em CDs e DVDs piratas.

Desde 1976 existem filmes que fazem parte desta cultura e os enredos são sempre parecidos: uma família honesta atravessa problemas financeiros graves e, para sobreviver, acaba ajudando no tráfico de drogas.

Os longas de baixo orçamento eram filmados em plantações de maconha e papoula e as namoradas dos traficantes eram as atrizes.

Já na música, ou os "narcocorridos", o que vale é a ostentação, a história do homem pobre que não tinha nada e agora tem poder e dinheiro. As letras exaltam a liberdade de mercado e a legitimidade em ganhar dinheiro.

Algumas músicas, como La Cruz de Amapola, se referem aos grandes chefes do tráfico como gerentes e aos traficantes como distribuidores.

A linguagem das músicas é indecifrável para os que não conhecem o tráfico no México, mas a mensagem tenta mostrar o traficante ideal, alguém que não obedece ordens, sabe que a vida é uma só e não quer ser pobre, e muito menos ir para os Estados Unidos ilegalmente. Prefere traficar drogas para aquele país.

Classe média
Os grandes chefões do tráfico no México já não querem se associar a esta cultura. A segunda geração de grandes traficantes é formada por universitários formados em administração de empresas, que não ostentam dinheiro e contratam químicos para a fabricação de drogas.

Mas, a cultura do tráfico está em todos os cantos do país, na forma de músicas, camisetas, filmes e tatuagens.

As classes média e alta compram os veículos Hummer, com vidros escuros para se sentirem como os grandes traficantes, seguros.

O fenômeno que leva a classe média a ouvir as músicas e ver os filmes sobre o tráfico ajuda a criar uma certa identidade em um país no qual as pessoas se sentem mais próximas vendo um mesmo programa de televisão do que morando numa mesma cidade.

E mesmo que seja rejeitada pelas novas gerações de traficantes, esta cultura já começa a recrutar gerações ainda mais novas.

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