Cuba pós-furacão vive escassez de alimentos

Os mercados agropecuários de Cuba, privados e estatais, estão vazios. Pouco há além de batata-doce, malanga, laranja e alho.

BBC Brasil |

Desabastecimento comparável ao dos anos 1990, quando começou a crise econômica pós-era soviética e as feiras de produtos agropecuários estavam proibidas.

Ninguém quer falar, todos dizem não saber o que está acontecendo e o controle interno é tal que o administrador do mercado de Tulipán, o sr. Soberón, nos disse que para fotografar os estandes precisaríamos de uma autorização do Ministério das Forças Armadas.

Mas nossa reportagem pôde ver as filas de pessoas esperando para comprar quantidades limitadas de batata-doce e malanga, um tubérculo da família da taioba, as duas únicas variedades vendidas ali. Frutas, apenas laranjas e uvas, e nada de vegetais.

A uma curta distância está outro mercado agro, privado, que se encontrava totalmente vazio, à parte alguns pedaços de gordura de porco à venda. Quando os trabalhadores começaram a falar com a reportagem, o administrador lhes disse que não respondessem às perguntas, e ali terminou o diálogo.

Furacões

No bairro central de El Vedado se encontra o mais bem abastecido dos mercados da capital, onde a maioria dos estrangeiros e os cubanos endinheirados fazem suas compras. Ali nos deparamos com um panorama similar.

No posto de venda de verduras da rua 12 com a 17, pudemos finalmente quebrar o gelo. O administrador da feira, Jorge Luis Gamboa, nos contou que o abastecimento era por causa dos furacões e que as cooperativas produtoras "não têm nada para enviar" aos feirantes.

No mercado dele só há batatas e laranjas, mas Gamboa confia em que em breve as coisas mudem, já que produtos de ciclo curto - 2 ou 3 meses - estão sendo plantados para remediar a situação o mais rápido possível.

Mais adiante conseguimos encontrar alguns vendedores de mercados privados que nos explicaram a situação. Eles disseram que os caminhões que trazem as mercadorias das províncias estão sendo parados nos postos policiais.

Uma mulher de quem compro alimentos há anos me disse que "os poucos caminhões que conseguem passar trazem produtos muito caros para os preços impostos pelo governo".

"Nós não podemos comprar a US$ 10 e vender a US$ 7", afirmou.

No ambiente se percebe certa irritação. "Estão fazendo coisas que nem na ditadura de (Fulgêncio) Batista", disse o vendedor de um dos postos do bairro. "Daqui a pouco o governo virá pedir comida aos camponeses."

Apreensões

Ao que parece têm havido apreensões de vários carregamentos de alimentos e inclusive detenções. Mas até agora só pudemos confirmar o caso de Niurka Castilla, dona de um posto de venda no bairro de Mônaco, em Havana.


Barracas vazias marcam as feiras em Havana / Reuters

Niurka foi presa no último dia 24 de setembro, quando as autoridades encontraram vários sacos de feijão e arroz em um armazém. Outros trabalhadores do lugar a acusam de reter alimentos e gêneros de primeira necessidade, algo que sua família nega.

Mas como sempre, em Cuba as coisas não são o que parecem. Em um dos mercados "vazios" que visitamos pudemos comprar de forma clandestina tomates e cebolas a US$ 2 o quilo.

Tive de esperar na porta traseira do mercado durante 15 minutos enquanto alguém trazia a mercadoria. Não pudemos pesá-las, tudo foi muito rápido. Entreguei-lhes o dinheiro, eles me deram as bolsas e desapareceram.

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