Cuba celebra seu 50º aniversário da Revolução, em um momento de incertezas sobre sua evolução, tanto econômica quanto política, com Raúl Castro no comando, sob o olhar vigilante do fundador do regime, seu irmão mais velho, Fidel, de 82 anos.

Desde que sucedeu ao irmão doente, em julho de 2006, Raúl, de 77, preconiza medidas de alívio, algumas em ruptura com o dogma comunista de igualdade social, com o objetivo de relançar uma economia já sem forças e salvar as "conquistas" da Revolução, como a Saúde e a Educação.

Ele se chocou, porém, com a reticência de defensores do status quo no seio do Partido Comunista, do qual o próprio Fidel posa de guardião da ortodoxia desde sua "aposentadoria médica".

"É difícil prever a evolução do regime, mas a maioria das autoridades cubanas entendeu que a grave situação econômica obrigava o governo a fazer reformas para a sobrevivência do regime, como fizeram após a queda da URSS" em 1991, comentou um diplomata estrangeiro.

Para melhorar a produtividade em um país minado pela corrupção, Raúl Castro também autorizou o desnivelamento dos salários para fazer justiça aos que "trabalham mais", medida essa que deve entrar em vigor em janeiro.

Ele prega ainda o fim das "gratuidades irregulares" a uma população que envelhece e que deverá, a partir de agora, trabalhar mais cinco anos até poder se aposentar, aos 65 anos, no caso dos homens, e 60, no das mulheres.

Outra medida para "liberalizar" uma economia 90% controlada por um Estado extremamente burocratizado é a privatização das terras públicas ociosas para pequenos agricultores, de modo a reduzir a dependência do país das importações de gêneros alimentícios (84% de suas necessidades).

Se o rigor e a firmeza exigidos por Raúl para frear os gastos e a corrupção parecem responder aos anseios do comandante Fidel, a abertura e a descentralização da economia, que avançam a passos bastante lentos e estudados, não devem, certamente, agradar àquele que convocou um retorno ao socialismo "puro e simples", frente à crise financeira mundial.

Além das lutas internas no PC, "a evolução do regime dependerá também da decisão de Barack Obama de aliviar, conforme prometido na campanha, o embargo a Cuba, em vigor desde 1962", destacou um diplomata, referindo-se ao presidente eleito dos EUA.

Raúl Castro já declarou estar pronto para o diálogo, mas de igual para igual com Obama, cuja chegada à Casa Branca, em 20 de janeiro próximo, coincidiu com uma retomada das atividades diplomáticas em Havana.

Cuba intensificou as relações, sobretudo militares, com a Rússia, seu ex-aliado da Guerra Fria, com a China e com uma América Latina muito mais à esquerda e hostil ao modelo americano.

A ilha, de 11,2 milhões de habitantes, também relançou em outubro passado a cooperação com a União Européia, suspensa há cinco anos, devido a uma onda de repressão contra os dissidentes do regime.

Sobre o delicado tema dos direitos humanos, a situação ainda não mudou sob a presidência de Raúl Castro, em um país onde a informação continua sob estrito controle, denuncia a dissidência, que diz haver hoje 219 "presos políticos".

"Pelo contrário, há uma repressão crescente" em resposta à degradação da situação econômica, decorrente da passagem de furacões (com perdas estimadas em 10 milhões de dólares, ou seja, 20% do PIB) e da queda dos preços do níquel, principal produto cubano de exportação, avalia o jornalista dissidente Oscar Espinosa Chepe.

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