Cuba dá a Obama chance de aplicar discurso de mudança

A eleição do democrata Barack Obama injetou novo ânimo nos que querem mudanças nas relações entre Estados Unidos e Cuba. Com tantas questões complexas para o novo presidente americano, analistas afirmam que Cuba poderá dar a Obama uma oportunidade de aplicar o tipo de mudança na política externa americana que o mundo, e particularmente a América Latina, espera.

BBC Brasil |

Da Rússia ao Irã, Iraque e Paquistão, "nenhuma destas questões permitirá que o presidente Obama sinalize rapidamente para o mundo o tipo de mudanças propostas por ele na política externa americana", afirmam Lawrence Wilkerson, ex-chefe de gabinete do ex-secretário de Estado americano Colin Powell, e Patrick Doherty, da New American Foundation.

"Por outro lado, a política Estados Unidos-Cuba é algo mais fácil: apesar da importância menor em termos domésticos, poderia ser mudada imediatamente com custo baixo."
Nova geração
Declarações feitas pelo próprio Obama e políticas a respeito do assunto divulgadas pelo site de campanha do democrata aumentaram as esperanças.

Um fator importante que leva ao aumento dos pedidos por mudança nas relações entre os dois países é o crescente número de cubanos-americanos que querem ter mais contato com Cuba e ajudar suas famílias no país e também acreditam que esta mudança na política americana poderá levar a mudança a Cuba.

É na nova geração de cubanos-americanos, que não viveram sob o regime de Fidel Castro, que a mudança de atitude é mais sentida. Mas alguns cubanos-americanos mais velhos também mudaram suas opiniões.

Carlos Saladrigas, 60, mora em Miami e sempre votou no Partido Republicano. Na última eleição, decidiu votar em Obama.

"Você não precisa ser muito inteligente para perceber que, depois de 50 anos tentando algo que não funcionou, talvez seja hora de tentar algo novo", disse à BBC em 2008.

Para Saladrigas, a melhor forma de levar a mudança para Cuba seria permitir que cubanos-americanos se transformem em agentes desta mudança, deixando que visitem a ilha.

Restrições
A página de campanha de Obama diz que ele vai "dar poderes a nossos melhores embaixadores da liberdade ao permitir viagens familiares e envio de dinheiro ilimitados de cubanos-americanos para a ilha".

Uma maneira rápida de sinalizar mudanças seria suspender algumas das restrições impostas pelo presidente George W. Bush em 2004.

Bush limitou o número de visitas de cubanos-americanos à ilha de uma viagem por ano para uma a cada três anos.

Também reduziu o limite de dinheiro que estes cubanos-americanos poderiam levar para a ilha, de US$ 3 mil para US$ 300.

Embargo
Um novo relatório publicado pelo instituto de pesquisas políticas Brookings Institution, de Washington, aconselha uma reversão quase total da política americana em relação a Cuba.

O relatório, elaborado por lideranças políticas dos Estados Unidos e da América Latina, defende a suspensão de todas as restrições de viagem de americanos a Cuba e recomenda a remoção da ilha da lista de países que patrocinam o terrorismo.

Obama poderá não ir tão longe, mas há poucas dúvidas de que vai mudar a política que causou desconforto na maioria dos países do mundo em relação aos Estados Unidos.

Em outubro, a Assembléia Geral da ONU adotou uma resolução que pedia aos Estados Unidos a suspensão do embargo comercial à ilha, que está no 17º ano seguido.

Apenas Israel e Palau ficaram ao lado dos Estados Unidos, e 185 países votaram contra.

América Latina
Uma aproximação com Cuba também iria ajudar a fortalecer os laços com a América Latina.

Em sua página, Obama declara que "a política de Bush nas Américas foi negligente em relação a nossos amigos, ineficaz com nossos adversários, indiferente em relação aos desafios importantes na vida do povo e incapaz de progredir com nossos interesses na região".

"Enquanto as Américas mudaram, ficamos à margem, sem oferecer uma opinião convincente e criando um vácuo para demagogos avançarem com uma pauta contra os Estados Unidos", diz o site.

O governo Bush rejeita a acusação de que negligenciou a América Latina, destacando que o presidente viajou nove vezes para a região.

Mas existe espaço para melhora, segundo Wilkerson e Doherty.

"Nossa política em relação a Cuba é também um obstáculo para o início de um novo relacionamento com as nações da América Latina", dizem os analistas.

"Mas até que Washington encerre as sanções extraordinárias que incluem o embargo a Cuba, (...) os problemas em nosso quintal - Hugo Chávez, drogas, imigração, insegurança energética - vão simplesmente piorar."
Desafio econômico
Os partidários do embargo e das políticas mais duras em relação a Cuba afirmam que qualquer aproximação com a ilha seria um sinal de fraqueza, concessões unilaterais a um regime opressor sem nada em troca.

Cuba, por sua vez, aprovou algumas das propostas de Obama, e Raúl Castro propôs a libertação de dissidentes políticos em troca da libertação de cinco cubanos condenados por espionagem e detidos em prisões americanas, como um gesto que abriria caminho para uma reunião com o presidente eleito.

Obama provavelmente não fará tal acordo, mas a vice presidente do instituto de pesquisas Inter-American Dialogue, Marifeli Perez-Stable, em um artigo para o jornal Miami Herald, sugeriu que poderia ser possível trocar os "Cinco Heróis" (como são chamados em Cuba) por fugitivos americanos que vivem na ilha.

É raro uma possibilidade de mudança na política dos Estados Unidos em relação a Cuba tão real como a que se apresenta atualmente, mas também uma possibilidade de mudança nas atitudes em Cuba.

Depois de uma temporada de furacões devastadora, crise econômica mundial e queda nos preços do petróleo, que causa impacto no apoio que Cuba recebe de sua aliada Venezuela, os irmãos Castro poderão adotar uma postura mais maleável.

Obama deve viajar para Trinidad e Tobago em abril para participar da Cúpula das Américas.

Foram feitos pedidos para que ele apresente a mudança na política em relação a Cuba antes da reunião, para que a cúpula possa ser o início de uma nova era nos laços entre Washington e a América Latina.

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