Cuba comemora 50 anos de Revolução dividida entre transição e continuidade

O aniversário de 50 anos da Revolução Cubana chega em um momento desafiador para o único país comunista da América Latina. Em fevereiro de 2008, quando Raúl Castro assumiu a presidência da ilha, ocupada por seu irmão Fidel por 49 anos, criou-se uma expectativa sobre o que aconteceria com Cuba após a saída de cena do homem-símbolo do movimento revolucionário. Para os especialistas ouvidos pela reportagem do Último Segundo, o primeiro ano de governo de Raúl foi um misto de continuidade e mudança.

Luísa Pécora, repórter Último Segundo |

Desde que Raúl Castro se tornou presidente em caráter oficial (ele já estava no poder interinamente desde julho de 2006, quando Fidel Castro foi submetido a uma cirurgia abdominal), anunciou a eliminação do que chamou de "proibições mais simples" as quais os cubanos estavam sujeitos.


Clique para ver o gráfico sobre a Revolução Cubana

Entre as mudanças anunciadas nos meses que se seguiram está a eliminação dos tetos salariais dos funcionários públicos, como forma de estimulá-los a trabalhar e reverter o quadro de baixa produtividade da ilha. Na agricultura, produtores e cooperativas privadas foram autorizados a comprar insumos e ferramentas diretamente, sem interferência do governo.

No comércio, lojas passaram a vender celulares, computadores, DVDs e outros eletrodomésticos, enquanto os hotéis, até então destinados para uso exclusivo dos turistas, puderam voltar a hospedar cubanos, algo que não acontecia desde 1993.

Para Leonel Itaussu Almeida Mello, professor titular de Ciência Política da Universidade de São Paulo, tais medidas têm o objetivo de "aperfeiçoar o regime socialista em Cuba" e não de restaurar o capitalismo. "Raúl Castro está realizando reformas importantes, porque passamos do século 20 para o século 21 e lá se vão 50 anos de Revolução", afirma.

Antonio Roberto Espinosa, professor de Política Internacional da Escola de Sociologia e Política de São Paulo e da Escola Superior Diplomática, acredita que, embora custosas, as reformas anunciadas por Raúl tendem a mudar pouco a vida da população.

"Em um regime tão fechado, qualquer alteração é custosa internamente e complicada de se fazer", afirma. "Mas, enquanto o embargo dos Estados Unidos continuar vigente e o tipo de relação política da ilha continuar o mesmo, não há grandes mudanças em Cuba. Para isso, seria preciso uma reforma interna muito profunda".

O sociólogo Demétrio Magnoli acredita que as medidas anunciadas até agora são econômicas e não mudam nada em termos políticos. "Raúl não vai abrir mão do controle totalitário sobre a sociedade cubana", afirma. "Essas mudanças na economia se destinam, essencialmente, a legalizar práticas que já ocorriam clandestinamente, como o uso de dólar por cubanos".


Carros antigos e cartazes da revolução fazem parte da paisagem cubana / AP

Direitos humanos

Com a chegada de Raúl ao poder, quem também ganhou espaço foi sua filha, Mariela, diretora do Centro Nacional de Educação Sexual (Cenesex). Ela lidera um movimento que, neste último ano, conseguiu três conquistas: a realização do Dia Mundial Contra a Homofobia, pela primeira vez com chancela oficial; a permissão para que cubanos façam cirurgias de mudança de sexo; e a criação de um cineclube que mensalmente irá exibir filmes com temática gay. Em um país conhecido historicamente conhecido por promover perseguição aos homossexuais, as ações de Mariela causaram barulho.

Leonel Itaussu Almeida Mello acredita que esse tipo de repressão em Cuba é "coisa do passado". "A Mariela Castro faz um trabalho muito louvável, que começou quando Fidel ainda era presidente", afirma. "Cuba era um país machista, mas está se tornando mais pluralista e respeitador dos Direiros Humanos", avalia.

Para Demétrio Magnoli, o movimento liderado pela filha de Raúl representa um dos avanços recentes da sociedade cubana. "Cuba tenta se atualizar e reduzir uma repressão histórica e isso é algo positivo", afirma, destacando, também como avanço, o fato de Cuba ter assinado dois pactos interamericanos de Direitos Humanos. "Não significa que Cuba cumpre esses pactos, mas ter assinado já é um elemento significativo", afirma.

O sociólogo acredita que há uma tentativa por parte do governo cubano de se adaptar à mudança de governo nos EUA. "Enquanto Cuba se defrontava com George Bush, era mais fácil, do ponto de vista político, conservar intocado um sistema de repressão. Com a posse de Obama isso vai ficar mais difícil", avalia.

Nesse sentido, o fim do embargo econômico imposto pelos Estados Unidos à ilha desde 1962, seria fundamental. "Se Obama levantar o embargo, vai deixar o regime cubano em uma encruzilhada, pois as limitações impostas pelos EUA são usadas como pretexto político para legitimar a repressão permanente", opina.

Para Antonio Roberto Espinosa, ao levantar o embargo o governo Obama teria a oportunidade de "reencontrar uma convivência com o resto da América Latina, que aceita Cuba e rejeita os Estados Unidos". E embora o presidente eleito já tenha sinalizado a intenção de acabar com o bloqueio, a posição dos especialistas é de aguardo e expectativa.

"Do Obama, até agora, só ouvimos conversa, nada de categórico", afirma Leonel Itaussu. "O embargo é a primeira medida a ser discutida em relação a Cuba, porque impossibilitou a ilha de ter um desenvolvimento cultural, econômico e comercial de um país normal".

Legado

O professor acredita que, apesar de todas as dificuldades causadas pelo embargo, o balanço da Revolução Cubana é altamente positivo. "Foi um movimento popular e democrático que promoveu reforma agrária e urbana, acabou com o analfabetismo e produziu avanços na saúde e na cultura", afirma. "Quanto à política interna, é uma democracia popular, tem uma Constituição e o processo de sucessão se deu segundo as regras do jogo. Se o povo estiver insatisfeito, vai mudar a Constituição".

Já Demétrio Magnoli relativiza os avanços na educação e na saúde, geralmente apontados como os pontos positivos do governo de Fidel. Segundo ele, nos anos 1950, às vésperas da Revolução, Cuba já tinha bons indicadores sociais em comparação aos outros países da América Latina.

"Esse tipo de indicador reflete não um governo, mas toda uma estrutura social que é criada pela história nos tempos longos. Cuba foi o principal núcleo da colonização espanhola no Caribe e recebeu muitas famílias ricas da Espanha", afirma. "O que a Revolução fez foi conservar esse indicadores".

Para ele, o principal legado do movimento de 1959 é a destruição do capital social da ilha, ou seja, da riqueza material da sociedade. "Em 50 anos de Revolução, não há praticamente nada de novo em construção de moradia e obras públicas. As pessoas continuam habitando os mesmos edifícios e usando a mesma frota de automóveis", afirma, acrescentando que a Revolução também ensinou a sociedade que "o trabalho não abre horizontes".

"Os cubanos aprenderam que trabalhar honestamente não leva a nada, que para sobreviver é preciso praticar a corrupção do cotidiano, como cometer furtos no local do trabalho e estabelecer boas relações com pessoas do Partido Comunista, para conseguir favores e empregos", afirma.

Antonio Roberto Espinosa classifica a Revolução Cubana como "a tentativa mais corajosa e ousada da América Latina". "Esse exemplo agradável fica para a história, mas também fica a amargura de um grande sonho de liberdade que se transformou em uma nova forma de tirania", afirma ele, que diz torcer pela ilha. "É impossível ser latino-americano e não ter solidariedade e uma torcida imensa para que Cuba resolva os seus problemas".


Fidel liderou a guerrilha contra Fulgêncio Batista / AP

Leia também

Opinião

Leia mais sobre Revolução Cubana

    Leia tudo sobre: revolução cubana

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG