Cruzando os EUA: O hambúrguer e outros símbolos americanos em Ohio

AKRON, Ohio- Existe algum símbolo mais americano do que o hambúrguer? Eu não acho que caubóis, a Estátua da Liberdade ou até as listras e estrelas da bandeira cheguem perto. Se você está pensando em um ícone de grande demanda e que dá margem a negócios extravagantes, coloque um disco de carne entre dois pães e tempere com maionese.

BBC Brasil |

Não quero soar como se eu fosse contra os hambúrgueres. Pelo contrário, estou aproveitando bastante a culinária americana durante minha viagem pelo país. É fácil ficar fazendo campanha contra a obesidade e a necessidade de dietas, mas mais fácil ainda é sucumbir à tentação gordurosa, salgada e alta em colesterol.

Quando os estrangeiros querem expressar o seu desgosto pelo American Way, tendem atacar as cadeias de hambúrguer - seja pelo ativista francês José Bové, que destruiu um dos restaurantes da rede McDonalds, ou pelo sucesso do filme Super Size Me, de Morgan Spurlock.

No entanto, apesar das reclamações sobre o fast food americano, parece que o resto do mundo não consegue ficar sem ele. Lucros gerados pela rede McDonalds acumulam US$1,2 bilhões apenas na Europa.

O hambúrguer é o símbolo que melhor resume a natureza contraditória do sentimento anti-americano.

Eu já estou neste país tempo o suficiente para perceber que há mais por aqui do qualquer estereótipo jamais poderá sugerir. Mas o que os americanos pensam sobre o modo como são vistos fora dos Estados Unidos?

Para descobrir isso, eu visitei o restaurante Menches Brothers, em Akron. O proprietário, John Menches, insiste que seu bisavô, Charles, co-inventou o hambúrguer, em 1885 - uma afirmação que causa polêmica.

Eu organizei um encontro com um grupo de cinco adolescentes que fazem parte do programa PeaceMakers (Pacifistas, em tradução livre) - um grupo comunitário que visa afastar os jovens do crime.

Eles eram adolescentes inteligentes e engajados que estão interessados na opinião das pessoas além das fronteiras de seu país. Cada um deles imediatamente descartou qualquer sugestão de que os americanos não estariam interessados no resto do mundo.

Ariel Davis, de 17 anos, pediu um hambúrguer de frango e disse que não tem problema nenhum com fast food. No entanto, ela acha que é uma pena que esse tipo de comida seja usada como símbolo de seu país.

"Parece que a gente só quer se divertir", disse. "E a gente não é assim".

Ela percebe que a mídia estrangeira usa três temas recorrentes para caracterizar os Estados Unidos.

"Uma delas é o hambúrguer, a segunda é que é a terra das oportunidades, e a terceira é a guerra", disse.

"Queria que não fosse nem tanto o hambúrguer, nem tanto a guerra. Somos um monte de gente que quer a paz", afirmou.

A amiga dela, Dominique Council, de 16 anos, concorda que os conflitos no Iraque e no Afeganistão distorceram a opinião de muitos estrangeiros sobre os Estados Unidos.

A família dela abrigou uma estudante de intercâmbio espanhol que, segundo ela, já não gostava do país antes mesmo de chegar.

"Ela estava muito nervosa com a guerra e pensou que todo mundo concordava com o presidente", disse.

"Ela não conseguia ver que algumas pessoas aqui podem até achar que a guerra é errada, mas respeitam as tropas", afirmou a adolescente.

Cory Jarvis, de 15 anos, tem uma opinião diferente sobre o papel do Exército americano.

Ele se diz frustrado porque as tentativas de espalhar a democracia foram interpretadas como um leilão para tentar obter mais poder.

"Eles pensam que somos todos violentos, mas estamos lá para ajudá-los", disse.

Para Dao Letdara, a opinião de fora é a mais próxima de casa. Os pais dela se mudaram para os EUA quando ainda eram adolescentes, vindos de Laos, país destruído pela guerra.

Ela explica que a entrada de estrangeiros no país é uma prova de que os Estados Unidos são vistos como um local cheio de possibilidades.

"Os imigrantes estão vindo para cá porque querem um trabalho melhor, uma vida melhor e obviamente pensam que podem conseguir tudo isso aqui", afirmou.

Eu agradeço a todos eles. Como um estrangeiro tentando entender esse país, a conversa foi muito instrutiva e encorajadora também, já que todos demonstraram estar interessados sobre o que o mundo pensa dos americanos.

*Jon Kelly é jornalista da BBC e está cruzando os Estados Unidos em um ônibus. Por onde passa, ele entrevista americanos sobre qual é o melhor rumo para o país.

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