Nashville, Tennessee - A melodia de Rhinestone Cowboy ecoou no bar Tootsies. Uma banda cover de veteranos repassava um repertório de clássicos da música country.

Fiquei olhando para a minha bebida. Gosto um pouco de guitarra desde que fiquei em casa sozinho com uma garrafa de uísque e um CD do Johnny Cash.

Se a música de Memphis havia me dado uma idéia de como a cultura negra estava integrada na cultura popular americana, eu esperava que Nashville me diria algo similar em relação à história recente dos brancos do Sul.

Afinal de contas, este era um som com raízes na música folk dos colonos pobres escoceses e irlandeses.

O country era um estilo marcado por "vagabundos" e foras-da-lei como Cash e Kank Williams. Músicas sobre homens da classe média baixa e mulheres que lutam para vencer na vida eram articuladas por esquerdistas como Willie Nelson, Kris Kristofferson e Steve Earle.

Mas à medida que o sul e Appalachia se moviam na direção da coluna republicana, o mesmo fazia a música country. O gênero ficou tão associado com a direita conservadora que o trio musical Dixie Chicks foi ameaçado de morte e sujeito a boicote depois de dizer ter vergonha por George W. Bush ser do Texas.

Fui visitar dois músicos de Nashville cuja amizade atropelou a divisão azul-vermelha.

Buzz Cason, de 68 anos, e Ed Pettersen, de 46, têm escrito músicas juntos nos últimos cinco anos. Buzz, co-autor do hit de Robert Knight Everlasting Love, é republicano há 40 anos; Ed é um democrata leal e organizador do grupo pró-Obama Music City of Change.

Ambos lamentam a atmosfera de hostilidade partidária que, segundo eles, faz com que parceiras como a deles sejam extremamente raras.

Não é que eles achem difícil ver as coisas sob as perspectivas do outro. Buzz me disse que cresceu em um reduto democrata, mas, como muitos outros sulistas de sua geração, enveredou para a direita.

"Ao crescer, nós éramos democratas Roosevelt", diz Buzz. "Meu pai era um operário, ele não pensaria em votar no GOP (sigla em inglês de Velho Grande Partido), como o Partido Republicano é conhecido."
"Mas depois do meu primeiro sucesso, em 68, fui atingido em cheio por uma cobrança de impostos de 72%", conta. "Virei republicano na hora."
Ed reconhece que sua ideologia política o coloca em uma minoria de artistas de Nashville.

"Nos anos 60, a música country visava o trabalhador. Eram temas que tocavam a todos: amor, trabalho, economia", diz o músico.

"Hoje, há cantores de country que são democratas", acrescenta. "Alguns desejam defender suas crenças, mas abaixam a cabeça quando seus empresários dizem que isso não será bom para as vendas."
Buzz concordou balançando a cabeça. Mesmo conservador, ele diz não querer ver seus rivais políticos hostilizados da cena musical de Nashville - "a América não é assim", diz ele.

Mas, insiste Buzz, a música country não é culpada pelo endurecimento do partidarismo: este é um problema com a sociedade americana.

"Acho que é uma coisa cultural. Estamos vivendo em uma sociedade combativa" afirma Buzz.

"Todas essas pessoas gritando umas com as outras nos programas de televisão. Não precisa ser assim. Você pode ver que eu e Ed nos entendemos muito bem", conclui o compositor de música country.

*Jon Kelly é jornalista da BBC e está cruzando os Estados Unidos em um ônibus. Por onde passa, ele entrevista americanos sobre qual é o melhor rumo para o país.

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