Cruzando os EUA: Memphis fala de Elvis e segregação

Se você vai conhecer Memphis, é melhor fazê-lo em um Cadillac bege de 1955. O mais famoso filho da cidade, Elvis Aaron Presley, dirigia uma versão cor-de-rosa do mesmo carro - mas ele era o rei do rock n roll e eu sou apenas um blogger escocês branquelo, então acho que não faz sentido tentar competir.

BBC Brasil |

Essa é a parada mais antecipada da minha turnê pelos Estados Unidos. Como milhões de outras pessoas, minha apresentação à América foi feita pela sua música. E aqui é onde muito do som moderno dos Estados Unidos foi criado.

Meu motorista foi Tad Pierson, 56 anos, um nativo do Kansas que se mudou para cá por causa de seu amor pelo blues, e que agora administra a empresa de turnês American Dream Safari. Ele me disse que muito da música americana nasceu da interação entre negros e brancos e que Memphis, por sua proximidade com o delta do Mississipi, estava na posição perfeita para explorar essa interação.

Veja Elvis, por exemplo. Tad me levou para a casa onde o futuro astro viveu entre os 12 e 16 anos de idade, um apartamento desinteressante em um projeto habitacional no norte da cidade.

Durante o período de segregação racial nos Estados Unidos, essa foi uma área apenas branca, e Presley freqüentou uma escola só para brancos. As aulas de Isaac Haynes eram dadas em outra instituição, apenas para negros, a alguns metros de distância.

"Mas, obviamente, havia interação entre famílias brancas e negras por aqui", disse Tad.

"Elvis se apropriou pesadamente da cultura negra - musicalmente, estilisticamente. Ele freqüentava igrejas negras, não tanto para rezar, mas para ouvir a música."
Como resultado, após Elvis ter gravado That's All Right (Mama) no Sun Studios em 1954, os ouvintes inicialmente pensaram que ele era negro. Mas Tad acredita que foi a habilidade de Elvis de vender este tipo de música para uma audiência branca, além de trazer influências tradicionalmente brancas para a mistura, que fez o rock n' roll tão potente.

E em 1957 a Stax foi fundada do outro lado da cidade. Durante os anos 60 e 70, a gravadora de soul lançou uma série de álbuns fantásticos principalmente de artistas afro-americanos - Otis Redding, Sam e Dave, Carla Thomas e Hayes entre eles.

Mas, como Tad disse, a "Stax surgiu em uma época em que, inacreditavelmente, isso não era aceito". Os fundadores da gravadora eram brancos, assim como metade dos membros das bandas da Stax, Booker T e os MG's.

E a história de Memphis não era, infelizmente, apenas sobre harmonia e tolerância. Tad me levou à igreja onde Martin Luther King fez seu discurso profético "Eu estive no topo da montanha". No dia seguinte, ele foi assassinado no motel Lorraine, preservado hoje como parte do Museu Nacional de Direitos Civis.

E apesar de essas comunidades terem uma história musical rica, a pobreza ainda era um grande problema por aqui. Nós passamos por bairros lotados de estabelecimentos comerciais fechados e casas despencando.

De repente, Tad viu alguém que conhecia.

Charles "Pee-Wee" Mason, animado aos 72 anos, apertou minha mão. Ele me disse que os negócios vão bem. Além de ter seu próprio açougue, ele aluga um corredor de lojas modestas - um mercado de peixe, uma lanchonete e um local para descontar cheques.

"Estou aqui desde 1969. Foi bom para mim", disse. "A economia é bastante apertada, mas estamos sobrevivendo."
Esse bairro parece uma locação improvável para encontrar otimismo entre as manchetes pessimistas da crise econômica.

Mas Tad me deixou com a teoria de que a visão de prosperidade de seus conterrâneos pode ser encapsulada por seu mais famoso residente.

"Elvis se formou do colegial em 1953 aos 16 anos", disse Tad. "Quatro anos depois ele pagou por Graceland em dinheiro. É uma história do sonho americano."
"Mas ao final de sua vida, os excessos e o sucesso o mataram. O sonho americano está começando a ficar gasto nas pontas."
*Jon Kelly é jornalista da BBC e está cruzando os Estados Unidos em um ônibus. Por onde passa, ele entrevista americanos sobre qual é o melhor rumo para o país
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