Cristina chega à metade do mandato desgastada e com minoria parlamentar

Mar Marín. Buenos Aires, 19 dez (EFE).- A presidente argentina, Cristina Fernández de Kirchner, chega à metade de seu mandato com minoria parlamentar, após as eleições de junho, e desgastada pelos enfrentamentos com o setor agrário, a oposição e a polêmica gerada a partir da lei de meios audiovisuais.

EFE |

Eleita em outubro de 2007, Cristina não conseguiu nos dois anos de gestão sair da sombra do marido, o ex-presidente Néstor Kirchner (2003-2007), a quem ex-ministros e analistas locais atribuem as decisões mais importantes e conflituosas do Governo.

Kirchner, que acaba de ser empossado como deputado do novo Parlamento - constituído nos primeiros dias de dezembro -, sofre na própria carne as consequências da derrota nas eleições legislativas de junho passado.

De nada serviu sua decisão de antecipar as eleições, inicialmente previstas para outubro, em uma tentativa de garantir a vitória antes que a Argentina começasse a acusar a crise econômica internacional.

O peronista Néstor Kirchner foi vencido por uma pequena margem por outro peronista, mas dissidente, Francisco de Narváez, um empresário de origem colombiana que promete travar uma batalha contra o Governo.

Nas últimas semanas, o ex-presidente fracassou também em sua estratégia de impor o critério governista na hora de dividir o poder nas comissões parlamentares, o que demonstra que o Executivo terá de enfrentar nos próximos dois anos complexas negociações com a oposição.

Enquanto Kirchner acaricia a ideia de voltar a concorrer à Presidência do país em 2011, sua mulher trata de fazer algumas mudanças em sua imagem, suavizando os aspectos mais criticados pelos eleitores, como a soberba e a ausência de diálogo.

Cristina tentou se aproximar da oposição, sem sucesso, e das organizações agrárias, que enfrentam o Governo desde o ano passado, quando protagonizaram uma greve que gerou perdas milionárias e representou um golpe ao Executivo, acossado por manifestações e panelaços como não tinham sido registrados no país desde o craque de 2001.

Quando continuavam vivos os efeitos da chamada "guerra" com o campo, a presidente embarcou neste ano em um novo enfrentamento com outro poderoso setor: os meios de comunicação.

Cristina baixou uma lei de meios audiovisuais que representa na prática um golpe econômico para alguns dos grandes meios locais, especialmente o grupo "Clarín", o mais importante do país.

Outras polêmicas decisões, como a nacionalização dos fundos privados de pensão, foram questionadas pela oposição e por parte do empresariado.

Apesar das mudanças introduzidas no Executivo, com a troca do chefe de Gabinete e do ministro da Economia - pela segunda vez em dois anos -, e embora Argentina não tenha sido tão duramente sacudida pela crise internacional como se temia no começo, Cristina não conseguiu que os argentinos confiem nos indicadores econômicos oficiais.

Poucos confiam nas estatísticas de inflação, que segundo o Governo não supera 8% ao ano e que instituições privadas situam em mais de 15%.

Também não conseguiu diminuir os níveis de insegurança e pobreza, ao redor de 20% segundo cálculos oficiais, que relatórios privados elevam para 40%.

Uma pesquisa divulgada em novembro revelou que a maioria dos argentinos acredita que vive em um país "na penumbra", que navega "sem rumo", onde impera a insegurança e o confronto, e a falta de um modelo e uma liderança clara.

Paralelamente, a presidente tentou dar movimento à política externa que tinha adotado seu marido, se aproximar de organismos internacionais, como o Fundo Monetário e o Banco Mundial, e manter uma ativa agenda internacional, sobretudo com seus vizinhos e parceiros do Mercosul, e iniciar uma tímida aproximação com os Estados Unidos.

Em 2010, quando a Argentina somará às celebrações do Bicentenário, presidirá Mercosul, o fórum América Latina e Caribe e será anfitriã da Cúpula Ibero-Americana, Cristina terá uma boa oportunidade para melhorar a imagem do país e medir forças com o Brasil, líder indiscutível da região. EFE mar/dm/mh

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