Policiais armados foram destacados para proteger as igrejas onde coptas se reúnem; analistas alertam para onda de violência

Cristãos ortodoxos coptas do Egito celebram nesta quinta-feira a véspera do Natal (ortodoxo) em meio a um forte esquema de segurança devido ao temor de novos atentados como o de 31 de dezembro, que matou mais de 20 em Alexandria, no norte do país.

Policiais armados foram destacados para proteger as igrejas onde os coptas se reúnem para marcar a data. Enquanto isso, houve apelos para que muçulmanos façam vigília diante das igrejas coptas – que congregam a maioria dos cristãos egípcios –, como um gesto de solidariedade.

Policiais egípcios fazem segurança em igreja copta atacada na noite de ano-novo, em Alexandria
AP
Policiais egípcios fazem segurança em igreja copta atacada na noite de ano-novo, em Alexandria
Alguns sites radicais islâmicos, no entanto, falaram em novos ataques e publicaram endereços de igrejas coptas no Egito e na Europa, com instruções para atacá-las. “Explodam as igrejas enquanto eles celebram o Natal ou em qualquer outro momento em que elas estejam cheias”, dizia um vídeo atribuído à rede extremista Al-Qaeda que circula na internet.

Onda de violência

Analistas ouvidos pela BBC Brasil alertaram que o Egito pode ser palco de uma onda de violência sectária promovida por grupos extremistas liderados pela Al-Qaeda. De acordo com os especialistas, o extremismo recente no Egito seria obra de agentes externos, interessados em desestabilizar o país, de grande força política no mundo árabe e alinhado com os Estados Unidos. 

Para o ex-embaixador egípcio Mohammed Said El-Sayed, supervisor-geral e colunista da revista O Diplomata, o Egito não passa por graves problemas de extremismo interno, mas sofre com tentativas externas de implementar ideias radicais e desestabilizar o país. “O que há agora é um ataque contra o secularismo do país, que tem enorme influência sobre o cenário político do Oriente Médio. Um Egito instável servirá para os propósitos dos extremistas”, afirmou.

Para El-Sayed, em termos de extremismo, o governo egípcio teme mais a ameaça externa do que grupos políticos internos. “O Egito já vinha sofrendo infiltrações de grupos militantes como o Hezbollah e o Hamas, e também de grupo terroristas como a Al-Qaeda, que busca enfraquecer o governo egípcio”.

O cientista político Ziad Moussa, do Centro Al-Ahram de Estudos Políticos e Estratégicos do Cairo, concorda que há um planejamento externo para atacar a sociedade egípcia. “A fonte do extremismo no Egito vem principalmente de atores externos e sofre das consequências dos conflitos regionais, como o israelense-palestino”, disse.

Moussa diz também que no passado, muçulmanos e cristãos formavam uma sociedade secular, em que os dois grupos prestigiavam as festividades religiosas de ambos. “Tudo começou a mudar no início dos anos 70 quando o governo de Anwar Sadat aprovou uma emenda à Constituição secular do Egito, fazendo da sharia (lei islâmica) a base para legislação. Nessa época, o islã passava por transformações, se tornando mais político e fazendo as sociedades ficarem mais religiosas, sectárias e polarizadas”, afirmou Moussa.

Leis

Uma das leis consideradas antiquadas e restritivas diz respeito à construção de igrejas. Enquanto  muçulmanos necessitam apenas de aprovação municipal para construir mesquitas, os cristãos precisam do aval presidencial para renovar seus templos. O processo burocrático, que pode levar até 30 anos, trouxe como consequência as 100 mil mesquitas e apenas 2 mil igrejas no país.

Na noite de ano-novo, 21 pessoas morreram e outras 79 ficaram feridas em uma explosão de bomba por volta da meia-noite em frente a um templo cristão da cidade egípcia de Alexandria.

Os coptas são a maior comunidade cristã do Oriente Médio, com cerca de 10% da população de 80 milhões do Egito. O líder da Igreja Ortodoxa Copta é o Papa Shenouda 3º, considerado simpático ao regime do presidente Hosni Mubarak.

*Com BBC

    Faça seus comentários sobre esta matéria mais abaixo.