Crises diplomática e financeira complicam a já difícil política do Paquistão

Igor G. Barbero.

EFE |

Islamabad, 20 dez (EFE).- Os paquistaneses viveram em 2008 um ano intenso, com o fim do regime do general Pervez Musharraf, o auge da violência fundamentalista, uma economia quase em quebra e a severa deterioração das relações com a Índia, devido ao massacre terrorista de Mumbai.

Após o incidente na cidade indiana, a potência nuclear acusou imediatamente o vizinho Paquistão de abrigar os terroristas do Lashkar-e-Toiba, que teriam atacado Mumbai, e exigiu o desmantelamento completo de seus redutos.

A disputa diplomática entre os dois países acontece no final de um ano de mudanças, no qual o lançamento de Asif Alí Zardari, viúvo da ex-premiê Benazir Bhutto, à Presidência, em setembro passado, deu um reviravolta na divisão de poderes que Musharraf tinha negociado meses antes com a própria Bhutto e deixou a direção do país completamente nas mãos do Partido Popular do Paquistão (PPP).

Pouco antes, a Liga Muçulmana do Paquistão-Nawaz (PML-N), do ex-primeiro-ministro Nawaz Sharif, tinha consolidado o rompimento final com o PPP após uma tortuosa relação governamental que mal durou cinco meses.

"Em um país de tradição cainita, a era Musharraf terminou com o acordo básico de sua saída decorosa da Presidência. Mas o Governo civil do PPP foi incapaz de tomar uma só decisão desde março. É uma situação dramática", expôs à Agência Efe uma fonte diplomática ocidental.

A opinião é compartilhada pelo general reformado Talat Mahsud, que também à Efe disse que "o Governo tem certo nível de legitimidade, pois foi eleito democraticamente, mas existem sérios problemas de credibilidade".

"As forças democráticas não estão legislando acertadamente. Foi iniciada a democracia formal, mas é preciso muito tempo para que se consolide", acrescentou.

O Governo de coalizão resultante do pleito de fevereiro, que o PPP lidera e é integrado por várias legendas minoritárias, conseguiu em agosto, com o empurrão do PML-N de Sharif, forçar a saída de Musharraf, após ameaçá-lo com um processo de cassação parlamentar.

A saída de Musharraf "foi a grande conquista. O assassinato de Bhutto mudou infelizmente os passos previstos na transição e Zardari, que não é um político, se alçou ao poder para desgosto de muitos", disse à Efe um destacado dirigente do Liga Muçulmana do Paquistão-Quaid (PML-Q), legenda que sustentou o regime anterior.

"As eleições demonstraram que era necessário que as forças políticas trabalhassem juntas, mas após o fracasso de colaboração entre os dois grandes partidos entramos em uma fase de areias movediças", acrescentou.

"Se pudermos nos recuperar economicamente, então o trem democrático marchará para frente", ressaltou.

A economia vem sofrendo desde abril: o crescimento freou, a inflação disparou (25%), a divisa nacional desvalorizou mais de 20% frente ao dólar e a confiança dos investidores está muito baixa, em uma bolsa com perdas superiores a 40%.

Fora isso, as reservas de divisas estrangeiras caíram pela metade desde princípios do ano, ficando em cerca de US$ 6,7 bilhões, o que obrigou o Executivo a implorar ajuda de "países amigos".

Porém, a "falta de credibilidade e confiança" no novo Governo, segundo fontes diplomáticas, deixou ao Paquistão a única via do Fundo Monetário Internacional (FMI), que aprovou em novembro um crédito de US$ 7,6 bilhões sujeito a severas condições.

Enquanto isso, a violência fundamentalista experimentou uma perigosa alta: após negociações de paz com os insurgentes que fracassarem, o Governo deu a ordem ao Exército de iniciar ofensivas, que por enquanto custaram 2.500 vidas em várias regiões do norte e do noroeste, próximas ao Afeganistão.

Os talibãs paquistaneses continuaram com uma onda de ataques suicidas por todo o país que causou várias centenas de mortes, ao menos 500 delas no ataque com 600 quilos de explosivos que destruiu, em setembro, o luxuoso hotel Marriott.

"Os insurgentes demonstraram que podem chegar a qualquer lado. O Marriott e os recentes seqüestros e atentados contra diplomatas e outros estrangeiros fizeram o alarme soar. Já não são só as forças de segurança ou os políticos os alvos", observou uma fonte da ONU que não quis se identificar.

Com o Exército afogado pelas operações abertas contra os insurgentes, sua cúpula observa com inquietação um hipotético movimento de tropas à fronteira com a Índia, caso a crise com o país vizinho, com quem já teve três guerras, se torne maior. EFE igb/rr/mh

    Leia tudo sobre: iG

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG