Crise volta a atingir mercado brasileiro; Governo e empresas entram em alerta

Waldheim García Montoya. São Paulo, 29 set (EFE).- A crise financeira internacional fez estragos hoje no mercado brasileiro, ao passo que o Governo e as empresas do país entraram em alerta diante dos riscos de a atual crise atingir a economia nacional.

EFE |

O Brasil, que segundo suas autoridades está blindado contra as turbulências do sistema financeiro internacional devido a seus fundamentos macroeconômicos, sentiu hoje, nos mercados cambial e de ações, o baque externo causado pela rejeição da Câmara de Representantes dos Estados Unidos ao plano de resgate financeiro apresentado pelo Governo de George W. Bush.

O Índice da Bolsa de Valores de São Paulo (Ibovespa) caiu 9,36%, para 46.028 pontos, seu pior desempenho em uma década. Já o real sofreu sua maior queda percentual desde janeiro de 2002, de 6,14%, o que fez a moeda americana encerrar o dia cotado a R$ 1,968 para venda.

No começo da tarde desta "segunda-feira negra", as operações da Bovespa chegaram a ficar suspensas por meia hora, depois que o principal indicador do mercado local atingiu uma queda de 10,16%.

A tormenta que atinge há várias semanas os mercados do Brasil, considerado uma potência emergente, levou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva a se reunir com seu ministro da Fazenda, Guido Mantega, para analisar a situação.

Mantega reiterou que "o mercado brasileiro está bem" e "sólido", mas reconheceu que, "evidentemente, falta um pouco de crédito em dólares" para o setor exportador.

"Constatamos que houve uma diminuição no crédito por parte dos bancos privados, e nós, na semana passada, demos mais liquidez no mercado" ao diminuir a taxa que os bancos têm que pagar ao Banco Central (BC), declarou o ministro.

O presidente do BC, Henrique Meirelles, reconheceu que o Governo brasileiro levou "um susto" com o que definiu como "uma crise séria", mas lembrou que, no caso do Brasil, o país tem mais reservas em dólares que dívida externa, o que lhe dá solidez para fazer frente a qualquer emergência.

Lula, por sua vez, foi mais entusiasta, e, ao ser perguntado sobre os efeitos da crise no Brasil, disse que "a bolsa historicamente sobe e desce".

"Normalmente, em momentos de nervosismo econômico, as bolsas no mundo inteiro caem. Não é só a bolsa brasileira. As bolsas no mundo inteiro estão caindo, e a solução da crise vai depender muito da sabedoria do Governo e dos políticos americanos", declarou o presidente.

Uma opinião diferente têm os analistas financeiros, que acham que, apesar da postura oficial, a crise pode trazer graves conseqüências para o país.

O diretor da Associação dos Analistas e Profissionais de Investimento do Mercado de Capitais do Brasil (Apimec), Antonio Carlos Colangelo, comentou que, "a curto prazo, não há uma solução" para a turbulência que sacode o mundo financeiro e pode atingir a economia real.

"A dificuldade para aprovar um plano de resgate se torna mais difícil nos EUA com a proximidade das eleições presidenciais", acrescentou.

Colangelo alertou para as dificuldades que as empresas brasileiras que apostaram em um dólar desvalorizado começam a encontrar.

A Sadia e a Aracruz já admitiram perdas milionárias em seus últimos balanços, as quais foram atribuídas a operações de risco no mercado cambial.

Segundo o banco americano JPMorgan, a siderúrgica CSN pode perder US$ 600 milhões em operações desse tipo, embora a empresa negue tal situação.

Para evitar mais pânico no mercado, várias companhias brasileiras, como a Embraer, emitiram comunicados esclarecendo que usam derivativos sem qualquer intenção "especulativa", exclusivamente para se proteger dos riscos da variação cambial.

Apesar de as autoridades estarem tentando acalmar os mercados, empresas da economia real começam a sentir os efeitos da crise na Bovespa, como é o caso da construtora Rossi Residencial, cujas ações ordinárias caíram hoje 22,57%, enquanto as das siderúrgicas CSN e da Usiminas recuaram 15,36% e 14,64%, respectivamente. EFE wgm/sc

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