Paris, 30 jun (EFE).- A crise econômica provocou uma queda muito grande do número de imigrantes que chegam aos países desenvolvidos, pela primeira vez desde os anos 80, segundo um relatório da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), publicado hoje.

O relatório pede aos Estados que se prepararem para a volta dos imigrantes com a reestruturação da economia.

"A queda da imigração foi causada pela crise e não pelas restrições dos países ricos. Os imigrantes que chegam ao país e se instalam dizem a seus compatriotas que as condições trabalhistas se endureceram", explicou o secretário-geral da OCDE, Ángel Gurría, em entrevista coletiva .

O relatório intitulado "Perspectivas das migrações internacionais" aponta que os trabalhadores imigrantes são os que mais sofreram os efeitos da crise econômica, que se traduz na perda de empregos e provocam uma taxa de desemprego superior à que afeta os habitantes nativos.

Assim, a taxa de desemprego em países como a Espanha, a Irlanda ou o Reino Unido é quase o dobro entre os imigrantes, comprada à que afeta os locais.

Durante os anos de expansão econômica, os imigrantes ocuparam majoritariamente postos em setores muito voláteis, com contratos temporais, o que fez com que eles fossem os primeiros atingidos pelas consequências da crise.

A construção, a hotelaria e os trabalhos ligados ao turismo sofreram os efeitos da brusca crise econômica diretamente e isso repercutiu nos imigrantes.

Além disso, os imigrantes têm um menor nível de qualificação, o que, em muitos casos, dificulta seu reingresso no mercado de trabalho.

Neste contexto, os Estados desenvolvidos endureceram suas políticas de entrada de imigrantes regulares, através da redução de quotas.

A OCDE indicou que é necessário adaptar a política migratória ao contexto econômico, mas avisou que uma restrição muito grande da entrada regular de trabalhadores estrangeiros pode contribuir para o desenvolvimento das redes de imigração ilegal, sobretudo quando a economia se reestabilizar.

Gurría alertou contra as "pressões sociais" sobre os Governos para restringir a chegada de trabalhadores estrangeiros e deu como exemplo o bom resultado que alguns partidos extremos apoiados em discursos xenófobos obtiveram nas eleições europeias.

O secretário-geral da OCDE assegurou que "a torneira da imigração não pode abrir e fechar à vontade" e lembrou que o envelhecimento da população nos países desenvolvidos aumentará a demanda de mão-de-obra estrangeira.

Neste contexto difícil, a organização pediu que o esforço governamental na ajuda à integração dos imigrantes seja mantido, que não deve ser abandonado pelas políticas desenhadas para atenuar os efeitos da crise.

Além disso, destacou a importância de ajudar os países de origem dos imigrantes, golpeados por um lado pelos efeitos da crise e por outro pela diminuição de entrada de capitais procedentes de seus trabalhadores no estrangeiro.

Neste sentido, Gurría citou um relatório do Banco Mundial (BM) que assinala que as transferências de capitais dos trabalhadores imigrantes se reduzirão entre 5% e 8% este ano, em relação aos US$ 305 bilhões acumulados em 2008.

Os Governos dos países desenvolvidos podem contribuir para atenuar este efeito, eliminando barreiras às transferências de capitais, muito caras para os imigrantes, indica o relatório.

Também é importante que as políticas migratórias dos países desenvolvidos tenham cuidado para não fomentar a "fuga de cérebros", o que penalizaria os países de origem.

O relatório considera também que os programas de retorno de imigrantes iniciados por alguns países e que oferecem certa quantidade de dinheiro aos que voltarem para seus países "só têm um impacto limitado". EFE lmpg/pd

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