Crise põe obstáculos a comércio e investimentos no Mercosul

Jaime Ortega Carrascal. Rio de Janeiro, 14 dez (EFE).- A crise internacional, que surge como um novo obstáculo para a integração regional, será abordada amanhã e nesta terça-feira na 36ª Cúpula do Mercosul, na Costa do Sauípe, na Bahia, com alguns membros do bloco temendo que a complexa situação mundial dê espaço a protecionismos comerciais.

EFE |

Desde que a crise se espalhou como pólvora pelo mundo, muitos países, entre eles o Brasil, que detém a Presidência semestral do Mercosul, reforçaram a necessidade de evitar que os Governos criem barreiras protecionistas como estratégia de defesa, tema sobre o qual parece não haver consenso no bloco.

O Brasil defende concretamente a conclusão da Rodada de Doha - da Organização Mundial do Comércio (OMC) e que tem como objetivo liberalizar o comércio mundial - com o argumento de que "uma maior abertura comercial é um excelente antídoto contra a crise", em palavras do próprio presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Por outro lado, o Paraguai chegou a estudar a necessidade de pedir a elevação da Tarifa Externa Comum (TEC) para frear uma "avalanche" de produtos asiáticos por causa da crise.

Já a Argentina advertiu sobre os riscos inerentes à liberalização comercial defendida pelo Brasil em um momento como o atual.

O secretário de Comércio Internacional argentino, Alfredo Chiaradía, disse recentemente em Brasília que se o Brasil insistir em fechar as negociações da OMC, seu país "buscará exceções", sobretudo no setor industrial.

"Se isso envolver um desgaste posterior da TEC do Mercosul, a Argentina não será a culpada", afirmou.

Para alguns especialistas, a postura argentina não surpreende, pois o protecionismo tem sido tradicionalmente defendido pelos industriais do país.

"Temo que o protecionismo seja um risco para o Mercosul agora. A União Industrial Argentina (UIA) - órgão similar à Confederação Nacional da Indústria (CNI) no Brasil - depende muito da proteção tarifária e nunca teve muita simpatia por regimes liberalizadores", disse à Agência Efe o presidente do Centro Brasileiro de Relações Internacionais (Cebri), José Botafogo Gonçalves.

Gonçalves, que foi embaixador na Argentina e embaixador extraordinário para assuntos ligados ao Mercosul, considera que "sob o pretexto da crise mundial, esse discurso protecionista pode ganhar força" e prejudicar o bloco.

A crise e seu impacto sobre o comércio regional foram motivo de uma reunião extraordinária do Conselho do Mercado Comum (CMC) do Mercosul ampliado, que inclui os Estados-membros plenos e parceiros do bloco, realizada em outubro passado em Brasília.

No encontro, o Mercosul concluiu que são necessários "mais comércio, mais integração, menos distorções e menos protecionismo" contra a crise, apesar de todos não demonstrarem convicção sobre essa receita.

"O pior que pode nos ocorrer é usar essa crise como desculpa para voltar a políticas que tínhamos nos anos 60, para começar a implantar um protecionismo velho. Isso só gerará barreiras em nossas economias e não resolverá os problemas", disse em Brasília Alejandro Foxley, chanceler do Chile, país parceiro do bloco.

Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai formam um mesmo grupo na hora de combater o protecionismo dos países ricos à agricultura, mas essa unidade se rompe quando se fala em barreiras no setor industrial, algo que no passado foi motivo de conflitos entre os dois maiores países do bloco.

"A indústria argentina sempre bate na mesma tecla (do protecionismo). É um tango de uma nota só", disse, por sua vez, Gonçalves, que considera que a brasileira, por outro lado, "já está preparada para enfrentar um novo choque de concorrência internacional".

Mas o comércio não é o único setor do Mercosul ameaçado pela crise, pois os investimentos em ambiciosos projetos de integração também correm risco pela escassez de crédito no mercado internacional.

O Brasil, que financia muitas obras de infra-estrutura regional por meio do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), já deu sinais de que manterá os cofres abertos, mas para maior segurança, outros países pediram aceleração no processo de fortalecimento do Banco do Sul, criado há um ano e que ainda não saiu do papel.

"As obras de infra-estrutura serão as menos afetadas pela crise, porque há um consenso e uma vontade política do Mercosul de não interrompê-las", disse o presidente do Cebri. EFE joc/fr/mh

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