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Crise obriga imigrantes brasileiros a abandonar sonho irlandês

Os brasileiros que vivem na Irlanda estão sentindo os efeitos da crise econômica que afetou o país e o conseqüente índice de desemprego, que chegou a 7.8% neste mês de dezembro, o maior nível nacional em dez anos.

BBC Brasil |

Um bom exemplo do impacto da crise pode ser observado na pequena cidade de Gort, no oeste irlandês. A população de pouco mais de 3 mil habitantes tem uma característica única: 40% dos habitantes são brasileiros.

A imigração brasileira à região começou no final dos nos 90, quando centenas de brasileiros foram contratados para atender a demanda dos frigoríficos locais por mão- de-obra especializada no abate e desossa do boi. A maioria deles vinha de Anápolis, no Estado de Goiás.

Ao contrário do que ocorre em vários outros destinos de brasileiros que saem do país, na Irlanda eles recebiam visto de trabalho e chegavam ao país já com emprego fixo e em situação legal.

Nessa época, o mercado de trabalho para brasileiros era abundante e muitos trouxeram a família para a Irlanda.

Mudança
A situação começou a mudar em 2004, com a entrada de dez novos países na União Européia. A partir desse ano, o governo irlandês deixou de emitir vistos de trabalho para imigrantes de fora do bloco, o que acabou afetando os brasileiros.

O cenário também ficou mais complicado para os imigrantes com o agravamento, neste ano de 2008, da crise econômica no país. Em setembro, a Irlanda foi o primeiro país da zona do euro a entrar em recessão - a primeira em 25 anos.

A crise afetou o comércio e os negócios, e atingiu empresas que contratavam imigrantes. Em novembro, um dos principais frigoríficos da região de Gort fechou as portas e demitiu dezenas de funcionários - muitos deles brasileiros que moravam na cidade.

Para procurar emprego, grupos de brasileiros se reúnem todas as manhãs em frente à igreja na praça principal da cidade. A maioria é ilegal e contratada apenas para empregos temporários que duram um ou dois dias.

"A gente fica parado aqui e quando alguém precisa de um pedreiro, encanador, diarista ou qualquer trabalho eles param o carro aqui e escolhem um de nós para trabalhar", disse à BBC Brasil o goiano Edésio Carlos Freitas, que está em Gort há quase dois anos.

Ele conta que os trabalhos diários, além de esporádicos, não pagam muito.

"A gente ganha cerca de 50, 70 euros por dia. Quase não dá pra guardar dinheiro", afirmou. "Tem semana que a gente consegue trabalho um dia ou dois e em outras nem trabalhamos", conta.

Durante a manhã em que a reportagem da BBC Brasil esteve ao local, apenas cinco dos mais de vinte brasileiros reunidos na praça conseguiram trabalho para o dia.

Retorno
A crise apressou a decisão de muitos brasileiros de retornar ao Brasil. Em entrevista à BBC Brasil, o escocês Frank Murray, sociólogo e ex-presidente da Associação Brasileira em Gort, disse que todos os dias, cerca de cinco ou seis brasileiros estão deixando a cidade.

"Eles estão indo embora porque a situação ficou muito difícil. É uma pena porque eles contribuíram muito para a cidade. Gort cresceu os brasileiros", afirmou.

O goiano João Luis da Silva Costa é um dos que resolveram ir embora. Ele está em Gort há mais de dois anos - morou aqui em 2003, voltou ao Brasil e retornou à Irlanda em 2005 com a esposa.

Ele conta que a situação neste ano está muito mais complicada do que nos anos anteriores, quando havia uma grande oferta de empregos fixos e a economia não estava em retração.

"A gente sai do país da gente para ter uma vida melhor, guardar dinheiro. Por isso, não está mais compensando ficar aqui, a gente tá só fazendo bicos e ganhando o suficiente apenas para viver", afirmou.

Ele vai retornar ao Brasil no dia 2 de janeiro para trabalhar na empresa de terraplanagem montada pelo irmão depois de uma temporada trabalhando na construção civil em Gort.

"Quando fui comprar minha passagem, o agente de viagens disse que vendeu cerca de 500 passagens para brasileiros só neste mês", disse.

"Acho que muita gente que pensava em ir passar o Natal em casa resolveu ficar por lá mesmo", disse.

Aqueles que não conseguem dinheiro suficiente para comprar a passagem de retorno estão procurando os programas de repatriação oferecidos pelo governo irlandês.

Em entrevista à BBC Brasil, Siobhan Ohegarty, porta-voz da Organização Internacional para a Imigração (OIM), na Irlanda, disse que os brasileiros estão no topo da lista das nacionalidades que mais fizeram pedidos de repatriação neste ano.

Segundo ela, os números ainda estão sendo analisados, mas a organização já pode afirmar que haverá um aumento significativo no número de pedidos com relação ao ano passado.

"Em 2007, os brasileiros foram responsáveis por 40% dos pedidos de repatriação. Neste ano, a porcentagem deve ser bem maior", disse Ohegarty.

'Rasgando os colchões'
Apesar da crise, uma das principais agências de transferência de dinheiro em Gort, a Real Transfer, registrou um aumento no número de remessas a partir de agosto.

De acordo com o gerente de Expansão e Negócios da empresa, Simonsen Miller, a crise fez com que os brasileiros "rasgassem os colchões" e enviassem o dinheiro que estava guardado para o Brasil.

"A incerteza e a insegurança trazidas pela crise fizeram com que eles pegassem o rendimento para pagar as contas fixas e o restante foi enviado diretamente para o Brasil. Eles não esperam mais o dia de amanhã", disse Miller.

Segundo ele, as remessas subiram entre os meses de agosto a outubro e depois passaram a diminuir e hoje não passam dos 3,5 envios por pessoa por mês.

"O valor que era enviado semanalmente agora passa a ser mensal por causa do desemprego", explicou.

Apesar disso, ele espera que a situação econômica do país volte a melhorar a partir do segundo semestre de 2009.

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