Crise na Bolívia piora e afeta seriamente envio de gás ao Brasil

A crise na Bolívia se agravou nesta quinta-feira, com confrontos que deixaram pelo menos quatro mortos e a invasão de uma estação de bombeamento que afetou seriamente o fornecimento de gás ao Brasil.

AFP |

A estação de bombeamento invadida fica na região de Chuquisaca (sudoeste), anunciou a empresa Transierra, de capital francês e brasileiro.

"A válvula de segurança (que fica na comarca de Machareti) foi manipulada, gerando a interrupção total do serviço que prestamos", afirmou a companhia em comunicado.

Por causa do problema, a Transierra deixou de bombear 17 milhões de metros cúbicos diários para o mercado de São Paulo. Mais de 70% da energia consumida pelo parque industrial de São Paulo provém do gás boliviano.

Uma explosão, quarta-feira, em outro gasoduto, da empresa Chaco, no sudeste do país, que o governo qualificou de "atentado terrorista", reduziu em outros três milhões de metros cúbicos o envio de gás ao mercado brasileiro.

Assim, a Bolívia deixa de entregar no total 20 milhões de metros cúbicos de gás dos 31 milhões diários enviados normalmente ao Brasil.

As manifestações contra o governo de Evo Morales continuaram nesta quinta-feira nas cinco províncias rebeldes do país. Enfrentamentos entre partidários do presidente socialista e militantes da oposição deixaram pelo menos quatro mortos e uma dezena de feridos no departamento de Pando (norte), na fronteira com o Brasil, segundo as autoridades regionais. Já as rádios locais mencionaram nove mortos.

Os incidentes aconteceram na comarca de Porvenir, 30 km a leste da cidade de Cobija, a capital de Pando, quando militantes e funcionários do governador Leopoldo Fernandez, da oposição, tentaram impedir uma reunião de camponeses partidários de Morales.

"Foi um confronto muito violento, com disparos para todos os lados. Várias pessoas ficaram feridas", disse à rádio estatal Patria Nueva um chefe policial de Pando.

Além disso, a cidade de Santa Cruz de la Sierra, capital da rica região de Santa Cruz (sul), estava nesta quinta-feira totalmente isolada do resto do país devido a bloqueios de estradas instalados tanto por grupos oposicionistas quanto por seguidores de Morales, constatou um fotógrafo da AFP.

O único acesso possível a esta cidade de 1,4 milhão de habitantes é por via aérea. Entretanto, militantes de direita bloquearam o aeroporto internacional de Viru Viru, o de maior movimento do país.

As províncias de Santa Cruz e Tarija (leste) são abaladas desde terça-feira por manifestações esporádicas, mas violentas, de grupos de estudantes oposicionistas, em apoio aos governadores separatistas destas regiões.

O governo Morales denunciou a "ameaça de guerra civil" propagada por "grupos fascistas".

O presidente venezuelano, Hugo Chávez, aliado de Morales, ameaçou intervir diretamente no conflito. "Se derrubarem Evo, se o matarem, saibam os golpistas da Bolívia que estarão me dando sinal verde para apoiar qualquer movimento armado na Bolívia", disparou em uma mensagem divulgada pela TV, garantindo, no entanto, que quer a paz.

Diante da deterioração da situação em seu país, o chefe do Estado boliviano avisou que "vamos ter paciência, cautela, e tentar, como sempre, evitar o confronto. Vamos agüentar, mas paciência tem limite".

Na quarta-feira, Morales exigiu a expulsão do embaixador dos Estados Unidos em La Paz, Philip Goldberg, acusado de fomentar a "divisão da Bolívia".

"A decisão do presidente Morales é um grave erro que prejudicou seriamente as relações bilaterais", reagiu nesta quinta-feira o porta-voz do departamento de Estado, Sean McCormack.

Para amenizar a situação, o ministro boliviano da Presidência, Juan Ramon Quintana, garantiu hoje que a decisão de expulsar Goldberg não significa "necessariamente" a ruptura das relações diplomáticas entre a Bolívia e os Estados Unidos.

O governo boliviano criticara Goldberg várias vezes pelo papel que os Estados Unidos pretendem desempenhar no combate à cultura da coca, e acusara a USAID de financiar a oposição de direita.

Morales também ficou muito irritado com um encontro recente entre o embaixador americano e o governador de Santa Cruz, Ruben Costas, o maior inimigo do presidente boliviano.

Evo Morales, o primeiro dirigente indígena da história da Bolívia, trava há meses meses uma dura batalha com os governadores da Meia Lua, formada pelos departamentos de Santa Cruz, Tarija, Beni, Pando e Chuquisaca, que rejeitam um projeto de Constituição qualificado de "indigenista" pela oposição de direita e exigem uma maior autonomia em relação a La Paz.

O projeto de Constituição deve ser submetido a referendo no dia 7 de dezembro.

gib/yw/fp/LR

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