Crise mudou forma como economistas vêem o mundo, diz autor

O economista Richard Thaler diz que não ficou tão chocado como Alan Greenspan, o ex-presidente do banco central americano, com a atual crise. Um grande defensor da liberdade de mercado, Greenspan disse que não esperava que tantos erros fossem cometidos pelos mercados e que ele fosse incapaz de se auto-regular.

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Para Thaler, a irracionalidade dos mercados não é uma surpresa e a atual crise pode gerar uma mudança profunda no pensamento econômico dominante, segundo o qual o mercado é formado por agentes econômicos racionais, capazes, em última instância de fazer as melhores escolhas para si mesmos.

Economista comportamental da Universidade de Chicago, ele descreve no seu mais recente livro (Nudge: O empurrão para a escolha certa) como as pessoas podem - e devem - ser ajudadas a fazer melhores escolhas econômicas sem perder liberdade. Essa é, aliás, a tese central de um movimento criado por ele com o estranho nome de "paternalismo liberal".

Thaler está no Brasil nesta semana para lançar seu livro e falou antes de chegar ao Brasil, por telefone, com a BBC Brasil. Leia a seguir, trechos da entrevista.

BBC Brasil - No seu livro o senhor fala sobre como é comum as pessoas tomarem decisões econômicas ruins, contrariando a tese de muitos economistas de que os indivíduos tendem a fazer as melhores escolhas para si mesmos. Qual a relação entre a crise e a forma que as pessoas tomam essas decisões?
Richard Thaler - A crise é tão ampla e profunda que você não pode dizer que haja apenas uma explicação. Mas é muito interessante olhar para o "mea culpa" que Alan Greenspan (ex-presidente do banco central americano, o Fed) fez há algumas semanas quando ele disse: "Estou chocado sobre o que aconteceu". Acho que você pode pensar nele como representando a visão do padrão do pensamento econômico, no qual os agentes econômicos tomam sempre as melhores decisões. Então onde podemos ver as falhas desse modelo do "agente econômico racional"? Nesta crise, você pode ver (as falhas) em todo o lugar, mas o mais interessante pra mim é que você pode ver do topo à base da, digamos, cadeia alimentar. Na base, toda a crise começou com as hipotecas subprime (de alto risco). Elas ficaram muito complicadas nos Estados Unidos e certamente muitas das pessoas que tomaram esses empréstimos não entenderam os riscos que estavam assumindo. Eles também tiveram claramente uma visão otimista do futuro, em que pensaram que o preço das propriedades não poderia cair. Ou seja, fizeram empréstimos que na verdade não podiam pagar, a menos que os preços das propriedades continuassem subindo e eles pudessem fazer um refinanciamento.

BBC Brasil - E no topo?
O que é mais surpreendente é que vemos as mesmas falhas no topo das empresas. Um presidente de empresa após o outro, das maiores e mais sofisticadas firmas financeiras do mundo, não entenderam os riscos que algumas divisões de suas companhias estavam correndo. E não perceberam que pequenos grupos dentro de suas empresas estavam assumindo tantos riscos que poderiam colocar em xeque a sua viabilidade como um todo.

BBC Brasil - Ou seja, eles também cometeram erros que em tese não deveriam ter cometido...

Sim, os mesmo erros humanos que as pessoas na base. No livro, usamos a imagem de Homer (pai de família do desenho Os Simpsons) para falar de como todos temos a capacidade de tomar atitudes irracionais, como assumir uma hipoteca sem se preocupar se conseguiremos pagar. Mas o fato de grandes empresas como a Bear Stearns e a Lehman Brothers fazerem essencialmente a mesma coisa é o que chocou Alan Greenspan. Como um economista comportamental, não fiquei tão chocado.

BBC Brasil - O senhor acha que essa crise vai mudar a maneira como a maioria dos economistas pensa? Pode acabar a idéia de que somos todos "agentes econômicos racionais"?
Eu acho que esta crise tem o potencial de mudar a forma como os economistas pensam sobre o mundo da mesma forma como a Grande Depressão de 1929 fez. Não vai acontecer do dia para noite. Tenha em mente que Ben Bernanke (o atual presidente do Fed) escreveu sua tese sobre a Depressão 30 anos depois de ela ocorrer. Levou-se décadas para que os economistas entendessem o que realmente ocorreu na crise. Por exemplo, até a 1929 os economistas não acreditavam que era possível ter 30% de taxa de desemprego. Era teoricamente impossível porque os salários cairiam tanto que acabariam por equilibrar o mercado. Quando as pessoas pensam em Keynes (John Maynard Keynes, economista que ajudou a elaborar saídas para a crise de 1929), elas tendem a pensar nele por causa da idéia de estímulo fiscal e o financiamento do déficit. Intelectualmente ele deveria ser mais famoso por explicar como podemos ter taxas de desemprego tão altas. Acho que estaremos estudando esta crise pelos próximos 30 anos.

BBC Brasil - Essa mudança já está acontecendo?
Eu conheço economistas financeiros que se tornaram mais "comportamentais" depois da crise de 1987 (quando as bolsas despencaram por uma semana em todo o mundo). Agora estamos tendo o que aconteceu naquela semana todas as semanas. É claro que ninguém tem um modelo financeiro que consegue racionalizar a volatilidade por que estamos passando.

BBC Brasil - O senhor acha que seremos rápidos o suficiente nesse aprendizado para evitar uma nova crise como a de 1929?
Acho que aprendemos na grande depressão...

BBC Brasil - Mas como o senhor disse isso levou bastante tempo...

Sim, mas nós aprendemos aquelas lições. Então podemos usar essas lições agora. Bernanke, sendo um grande estudioso da Depressão, está certamente tomando medidas para evitar que qualquer coisa como aquela se repita. Não acredito que nos Estados Unidos vamos ter algo parecido com a Grande Depressão. Não vamos ter 30% de desemprego. Podemos ter 8% ou 10%. Não vamos deixar os bancos quebrarem em massa. Não vamos deixar o suprimento de dinheiro cair em 30%. Nós sabemos bastante como estimular economias e como prevenir derretimento financeiro. No curto prazo, estou confiante em Bernanke e no time de apoio que Obama escolheu. O que vai levar muito tempo é a capacidade de criar mecanismos para evitar que esta crise se repita.

BBC Brasil - O senhor expõe no livro o conceito de paternalismo libertário ou liberal, segundo o qual as pessoas podem ser cutucadas para fazer escolhas econômicas mais racionais. Como essa idéia poderia ter mudado esta crise?
Nossa idéia geral é que é possível ajudar as pessoas a tomar decisões melhores e ao mesmo tempo manter a liberdade de escolha. Pensando na base da pirâmide, podemos dizer que há muitas coisas que poderíamos ter feito. Poderíamos ter ajudado as pessoas a tomar melhores decisões no mercado imobiliário. Um exemplo é promover a simplificação dos contratos. Hoje um contrato tem 30 páginas e é ininteligível. Nos Estados Unidos, poderia ser escrito em português, porque ninguém lê ou entende. Ou seja, poderíamos tomar ações para fazer com que os riscos das hipotecas ficassem mais claros. No livro falamos da idéia de criar sites que sejam capazes de "ler" contratos e explicar para as pessoas. Para isso seria preciso que as empresas criassem versões eletrônicas de seus contratos. Para pessoas menos sofisticadas esse trabalho poderia ser feito em uma agência do governo.

BBC Brasil - Mas mesmo no seu livro o senhor fala como as companhias resistem a essas idéias...

É por isso que precisamos de governo. Uma forma antiquada de lidar com o problema das hipotecas seria banir as mais complicadas. Isso não seria a libertário e levamos muito a sério essa idéia. Nossa solução seria forçar mais abertura e transparência. As empresas mais honestas se sairiam melhor, o que é bom.

BBC Brasil - O senhor falou que o topo também errou. Teria alguma sugestão para como ajudar o topo a tomar decisões melhores?
Essa é uma questão mais difícil, mas precisamos ampliar a abertura e transparência das empresas financeiras. Nessa crise ficou claro que existe uma espécie de seguro implícito para o mercado financeiro e se há isso, temos que monitorar mais. Mas é preciso fazer isso sem que se acabe com a capacidade das empresas de ganhar dinheiro. A meta é ter mais abertura e transparência, mas sem que isso impeça que as empresas façam dinheiro. Não tenho uma resposta pronta para isso, mas essa será uma das primeiras tarefas do presidente Obama (o presidente eleito dos EUA) e de outros reguladores em todo o mundo.

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