A crise econômica mundial provocou uma mudança no perfil do Brasil como exportador. Em abril, a participação dos produtos básicos (commodities que não passaram por processo industrial) no total das vendas externas do mês superou a dos manufaturados, o que não ocorria desde 1978, segundo dados da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB).

Essa inversão se manteve nos meses seguintes, e a previsão da AEB é de que, no acumulado de 2009, os produtos básicos representem em torno de 41% do total exportado, ante 40% de manufaturados.

Se essa projeção for confirmada, será a primeira vez em mais de 30 anos que a fatia das vendas externas de commodities supera a de manufaturados no resultado total.

"Nos últimos meses, os básicos superaram muito os manufaturados", diz o vice-presidente da AEB, José Augusto de Castro. No mês de agosto, os produtos básicos responderam por 44% do total exportado pelo Brasil, ante 40,4% dos manufaturados.

Tendência

O resultado de 2009 ainda depende do desempenho nos próximos meses, e nem todos os economistas consultados pela BBC Brasil compartilham a previsão de inversão na pauta de exportações no acumulado do ano.

No entanto, todos afirmam que o aumento da participação das commodities e a diminuição dos manufaturados já era uma tendência, acentuada pela crise econômica, que provocou queda das exportações brasileiras e redução generalizada no fluxo de comércio mundial.

"Houve uma queda na corrente de comércio que não acontecia há 40 anos. No caso das exportações, houve queda muito grande tanto de quantum (volume) quanto de preços", diz o economista Francisco Pessoa, da LCA Consultores. "Como era de se esperar, a queda no quantum de básicos foi menor do que no de manufaturados."
Nos primeiros oito meses deste ano as exportações brasileiras totalizaram US$ 98 bilhões, queda de 24,7% em relação ao mesmo período de 2008. Entre os básicos, a redução foi de 13,1%, bem abaixo da queda de 31,3% registrada entre os manufaturados.

Quando se compara o volume total (quantidade) das exportações do Brasil de janeiro a julho em relação aos sete primeiros meses do ano passado, a queda foi de 13%. Entre os manufaturados, a redução foi mais acentuada, de 27%. No entanto, os bens básicos registraram alta de 6,5%.

"Uma repercussão extrema da crise é a queda na exportação de manufaturados, que já vinha sofrendo desde 2006, com uma valorização muito forte da nossa moeda", diz o economista Júlio Gomes de Almeida, professor da Unicamp e ex-secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda.

"O impacto da crise sobre as exportações foi ruim de modo geral, mas foi especialmente ruim para os manufaturados", afirma Almeida.

Fatores

Grande parte das exportações brasileiras de manufaturados é destinada a países da América Latina e aos Estados Unidos, que foram fortemente atingidos pela crise e, com isso, reduziram suas importações.

"Além disso, houve questões específicas no Brasil, como uma antecipação grande de importação de soja pela China, que está compondo seus estoques, e também crescimento da exportação de petróleo, que ajudaram a fazer com que os básicos tivessem um acumulado muito melhor", diz Pessoa.

Apesar de também ter enfrentado uma desaceleração em decorrência da crise, a China ainda manteve fortes suas importações do Brasil, principalmente de commodities como minério de ferro e soja.

Alguns setores industriais afirmam ainda que a valorização do real frente ao dólar afeta a competitividade das exportações brasileiras, especialmente de manufaturados - opinião que não é compartilhada por todos os economistas.

Depois de um movimento de alta a partir de 2006, a moeda brasileira registrou um período de desvalorização com a crise, mas em seguida voltou a ganhar força.

"Com a atual taxa de câmbio e com a retração do mercado internacional, os produtos manufaturados são os que mais sentem o impacto negativo da crise", afirma Castro.

Os preços das commodities, que registraram forte crescimento ainda antes da crise, também impulsionaram a mudança de perfil.

"Ainda que não mudasse a quantidade exportada, só o fato de os preços dos básicos estar crescendo muito mais faria com que a pauta sofresse essa mudança", diz Pessoa.

Polêmica

No momento atual, em que o mundo ainda não se recuperou da crise e a demanda internacional por manufaturados continua em queda, o fato de o Brasil poder contar com a força das exportações de commodities é visto como um fator positivo.

"O setor agropecuário teve papel extraordinário enquanto fator defensivo", diz o economista Fabio Silveira, sócio-diretor da RC Consultores.

No entanto, a possibilidade de que os produtos básicos mantenham seu peso crescente nas exportações mesmo passada a crise causa preocupação e divide opiniões.

Para o vice-presidente da AEB, a extrema dependência de produtos básicos deixa o Brasil mais vulnerável. "Quando se exporta commodities, o país exportador não tem nenhum controle nem sobre o preço nem sobre a quantidade. A decisão é sempre do importador", afirma Castro.

"Essa é uma questão extremamente polêmica", diz Pessoa. "Inclusive, define em alguma medida a diferença entre desenvolvimentistas e não-desenvolvimentistas."

Segundo o economista da LCA, há a ideia de que os preços das commodities teriam tendência estrutural de queda, o que tornaria os países em desenvolvimento sempre com tendência de déficit em transações correntes. Além disso, a capacidade de geração de emprego e captação de tecnologia é maior nos bens manufaturados do que nos básicos.

"Isso não deixa de ser verdade hoje, mas com alguns questionamentos", afirma Pessoa. "Dada a entrada da China, o crescimento da população mundial e a dificuldade de expansão da produção de alguns bens básicos, é de se questionar se realmente os preços das commodities vão ter uma tendência de queda o tempo inteiro."

Pessoa afirma ainda que a pauta de bens básicos hoje é muito mais diversificada do que no passado e inclui alguns produtos que exigem adoção de tecnologia e têm impacto maior no emprego.

O economista da LCA diz também que, com a exploração do petróleo na camada do pré-sal, a tendência é de que a participação dos básicos nas exportações brasileiras aumente ainda mais.

"Não importa que os básicos tenham uma participação maior, desde que você também consiga vender manufaturados, de uma maneira que traga tecnologia e emprego", diz Pessoa.

Futuro

Segundo Almeida, há o temor de que, com a redução de competitividade nos manufaturados, o Brasil acabe perdendo terreno quando a economia mundial voltar a crescer.

"Há outros países, como a China, aumentando sua competitividade. No momento em que a economia mundial voltar a crescer, quem vai ocupar esse espaço deixado pela queda de exportações? Será que o Brasil terá o mesmo espaço? Não tenho condições de avaliar inteiramente, mas temo que o Brasil possa ficar para trás", diz o consultor do Iedi.

"Nossa exportação é pequena (em torno de 1% do mercado mundial), mas tem qualidade. Agora, está correndo o risco de perder até mesmo essa qualidade."

Um estudo divulgado em maio pela FGV Projetos e a consultoria Ernst & Young, com projeções até 2030, afirma que o Brasil deve perder participação nas exportações mundiais, especialmente no setor de manufaturados.

As projeções indicam que até 2030 as exportações brasileiras de manufaturados deverão crescer a uma média de 1,8% ao ano, enquanto as importações mundiais devem crescer 3,7% ao ano.

Segundo Luiz Passetti, sócio da Ernst & Young, apesar de elaborado ainda antes do agravamento da crise, o estudo já foi feito com base em um cenário conservador, e o momento atual não altera as projeções.

De acordo com os autores do estudo, o aumento insuficiente da competitividade - atribuído a fatores como custo crescente de energia, gargalos de infra-estrutura, um sistema tributário que encarece o preço final dos bens e investimentos insuficiente em pesquisa e desenvolvimento - fará com que o perfil das exportações brasileiras seja cada vez mais de produtos básicos.

*colaborou Marina Wentzel, de Hong Kong

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