Crise movimenta consumo de remédios entre argentinos

Maricel Seeger. Buenos Aires, 6 jun (EFE).- A Argentina é um dos países que registra maior consumo mundial de medicamentos para controlar a depressão ou transtornos de ansiedade, os quais afetam milhões de pessoas no país e que se expandem em tempos de crise econômica, dizem especialistas consultados pela Agência Efe.

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Entre 15% e 20% da população argentina sofre transtornos de ansiedade, enquanto que 7% padecem de depressão, o que equivale a cerca de nove milhões de pessoas, segundo estimativas do chefe da área clínica de ansiedade do Instituto de Neurologia Cognitiva de Buenos Aires, Francisco Doria Medina.

Os especialistas concordam que, em tempos de crise, como o atual, cresce o estresse, a ansiedade e, em consequência, o consumo de medicamentos para atenuar os transtornos, que se traduzem em problemas de saúde.

"A Argentina tem um alto consumo de medicamentos. Mas, além disso, houve um aumento do consumo destes remédios porque toda situação que aumenta a incerteza, como uma crise, faz com que a ansiedade das pessoas cresça", explicou o psiquiatra Hugo Marietan, docente da Universidade de Buenos Aires (UBA).

Uma pesquisa realizada pelo psiquiatra Eduardo Leiderman, professor da Universidade de Palermo, mostra que praticamente uma em cada seis pessoas que residem em Buenos Aires consome remédios para transtorno de ansiedade ou depressão.

"A frequência de consumo é mais elevada do que no Reino Unido, Estados Unidos, Canadá, em países da Europa ou na cidade de São Paulo", revelou o estudo de Leiderman.

Além disso, o estudo afirma que 25% das pessoas que ingerem estes remédios o fazem sem recomendação médica e que mulheres e idosos são os seus maiores consumidores.

De fato, os remédios de maior faturamento na Argentina (83 milhões de euros) durante o primeiro trimestre de 2009 foram os destinados ao sistema nervoso, principalmente sedativos e antidepressivos, informou nesta semana o Instituto de Estatísticas e Censos da Argentina (Indec).

Apesar da crise financeira global, a receita total da indústria farmacêutica na Argentina aumentou 25,1% durante o primeiro trimestre do ano, em comparação com o mesmo período de 2008.

A alta no consumo de remédios foi registrada principalmente em Buenos Aires, uma cidade com grande número de psicólogos, que atendem a uma considerável quantidade de pacientes que a cada semana levam seus problemas, muitas vezes relacionados com a ansiedade e a depressão, para análise.

Um dos principais males registrados na população argentina é o transtorno de ansiedade generalizado (TAG), que afeta cerca de dois milhões de pessoas e se manifesta em dificuldades para conciliar o sono, fadiga, problemas de atenção, baixo rendimento no trabalho, irritabilidade e contraturas musculares.

Em algumas ocasiões, o TAG não é reconhecido porque se apresenta associado a outros transtornos como, por exemplo, depressão ou ataques de pânico, explicam os especialistas.

Medina sustentou que, nos últimos tempos, houve um aumento na automedicação para tratar destas patologias, apesar de as farmácias terem a obrigação de pedir receita médica ao vender remédios para este tipo de doença.

"Quando as pessoas veem os efeitos beneficentes dos tranquilizantes, começam a tomá-los sem controle médico. Muitas vezes começam a consumi-los porque um amigo os recomendou e passam a ter uma dependência crônica", diz Marietan.

No entanto, o psiquiatra esclarece que estes remédios, acompanhados de uma psicoterapia, permitem "uma incrível melhora na qualidade de vida" das pessoas com estes transtornos. EFE ms/bba

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