Crise leva Rússia e Alemanha a questionar supremacia dos EUA

Moscou, 2 out (EFE).- O presidente russo, Dmitri Medvedev, propôs hoje à chanceler alemã, Angela Merkel, a criação de um novo sistema financeiro que deixe de lado a supremacia dos Estados Unidos.

EFE |

"Os problemas gerados pela crise financeira demonstram que a era do domínio de uma só economia e de uma só divisa ficou no passado", disse Medvedev durante um fórum político em São Petersburgo.

Medvedev criticou as políticas e o modelo econômico aplicado pelos EUA nos últimos anos, pelo qual, segundo ele, "quase todos" os países "estão pagando" atualmente.

"Devemos trabalhar juntos na formação de um sistema econômico e financeiro mundial novo e mais justo, e lutar para que isso se baseie nos princípios do multilateralismo, na supremacia da lei e no respeito mútuo dos interesses".

Na opinião do chefe de Estado, "para solucionar a crise atual, gerada em considerável medida pelo egoísmo financeiro", são necessárias "medidas coletivas", conforme informou a agência "Interfax".

"Os últimos eventos demonstram que nenhum país", por mais poderoso que seja, "pode se fazer de megaregulador. Por isso, necessitamos de novos mecanismos de adoção de decisões coletivas e de responsabilidade coletiva", afirmou.

Medvedev ressaltou que os problemas financeiros não devem ser discutidos apenas no marco do Grupo dos Oito (G8, os sete países mais ricos do mundo e a Rússia), já que é preciso "incluir também outras grandes nações que têm muito o que dizer no mundo financeiro".

"O atual sistema não cumpre com sua tarefa de manter a estabilidade financeira (...) e não garante que um ou outro país não tome decisões que, como conseqüência, provoquem uma reação em cadeia nos mercados internacionais", disse.

O líder russo pediu a todos os países que não se escondam "após os antigos esquemas" e criticou o G8 por não reagir "muito mais rápido" durante sua última cúpula, em julho, no Japão.

"Poderiam ter enfreado as seqüelas dos processos de crise que explodiram nos EUA e que se propagaram em cadeia a outras economias", ressaltou.

Por isso, ele encorajou Merkel a cooperar na criação de centros financeiros alternativos aos existentes, nos quais as "regras seriam as mesmas para todos".

Os dois governantes coincidiram sobre a necessidade de novas normas para os mercados de valores e novos mecanismos internacionais de gestão de crise, devido à grande "interdependência" econômica que existe devido à globalização.

Seu antecessor no cargo e atual primeiro-ministro russo, Vladimir Putin, acusou ontem os EUA de serem "incapazes" de tomar as medidas necessárias para frear a atual crise financeira.

"Não é" apenas a "irresponsabilidade de funcionários", mas principalmente a "irresponsabilidade do sistema, que, como se sabe, pretendia ser líder mundial", disse Putin durante uma reunião do Governo russo.

Já Medvedev voltou a pôr hoje sobre a mesa sua iniciativa de assinar um novo acordo de segurança europeu, que não acabaria com as estruturas já existentes.

"Infelizmente, os acontecimentos no Cáucaso demonstraram que o atual sistema de segurança global não é capaz de prevenir aventuras militares e devemos fazer tudo que for possível para criar uma moderna e confiável arquitetura de segurança para o futuro", afirmou.

Medvedev também negou que Moscou deseje o retorno à Guerra Fria.

"Pode ser que alguém deseje retornar à primitiva divisão do mundo (...) mas nós consideramos que não há razões" para construir "novos muros em Berlim", comentou.

Já Merkel afirmou que atualmente "não existe o sistema de segurança de que o mundo necessita" e é preciso "reforçar a ONU e o Conselho de Segurança e, talvez, dotar o FMI de novas funções".

Além disso, tanto o presidente russo quanto a chanceler alemã apoiaram o projeto do Gasoduto da Europa do Norte (NEGP), considerado o maior do continente e que deve começar a bombear gás a partir de 2010.

"Necessitamos deste projeto. É importante não só para a Alemanha, mas para muitos outros países europeus", disse Merkel.

Quanto à situação no Cáucaso, a chanceler criticou a reação "desproporcional" da Rússia no conflito bélico com a Geórgia, afirmou que a integridade territorial desse país não é negociável e pediu a Moscou que restabeleça a confiança em suas relações com o Ocidente.

Além disso, defendeu um maior papel dos observadores internacionais na região, e se mostrou partidária de um "diálogo preventivo" para evitar conflitos em áreas como Kosovo e Bósnia. EFE io/ab/rr

    Leia tudo sobre: iG

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG