Crise leva espanhóis a buscar empregos de imigrantes

Os imigrantes brasileiros na Espanha passaram a disputar vagas no mercado de trabalho com espanhóis que, até este ano, não se interessavam por empregos procurados pelos estrangeiros. Um exemplo são as vagas oferecidas na colheita anual de azeitonas, no sul do país.

BBC Brasil |

Durante os últimos 15 anos, a atividade foi feita por mão-de-obra estrangeira. Neste ano, no entanto, a crise financeira fez com que os espanhóis passassem a aceitar as ofertas de emprego nesse setor.

A pequena cidade de Úbeda, de cerca 34 mil habitantes, foi a primeira a oferecer a contratação de 12 mil trabalhadores na colheita das azeitonas. Em menos de um mês, o Serviço Andaluz de Emprego recebeu 15 mil pedidos de trabalho feitos por espanhóis - uma procura que não acontecia desde 1993.

A procura dos espanhóis foi tanta que o governo chegou a fazer campanhas publicitárias pedindo que os imigrantes interessados desistam de aparecer na região atrás de trabalho.

"Estamos avisando nas rádios, tevês e jornais que este ano não serão necessários mais trabalhadores temporários. Há gente mais do que o suficiente, mas eles continuam chegando", disse à BBC Brasil a delegada do Serviço Andaluz de Emprego, Teresa Vega.

"No máximo alguns entrarão como reforços nos domingos", afirmou.

O governo da Andaluzia tem oferecido passagens de ônibus de volta para os imigrantes que ficaram sem as vagas na colheita e a ONG Cáritas está oferecendo comida.

"A maioria não aceita ir embora, ainda espera uma mínima chance de última hora, mesmo ouvindo não todos os dias. É bastante triste", lamentou Vega.

Desemprego

O setor agrícola é apenas um dos vários exemplos da disputa entre espanhóis e estrangeiros por vagas antes rejeitadas por muitos europeus.

Segundo a pesquisa sobre população ativa do Instituto Nacional de Estatística (INE), essa disputa vem aumentando desde setembro e não ocorria há 15 anos, desde a última crise econômica no país.

Os dados do INE indicam que a cada dia, 2,5 mil trabalhadores espanhóis e estrangeiros perdem seus empregos na Espanha.

A crise não só colocou o país na liderança da taxa de desemprego da União Européia - com 11,3% - como também elevou o índice de estrangeiros sem trabalho para 17,5%, conforme os dados de novembro.

No setor da construção civil, o número de desempregados aumentou em 106% em relação ao ano passado. No setor de serviços, esse índice foi de 35%.

"Podemos falar de fenômeno de disputa trabalhista", disse à BBC Brasil o porta-voz da União Sindical Operária, José Luis Fernández.

"Antes um trabalhador nativo (europeu) preferia rechaçar certas ofertas por não concordar com o salário, com as condições precárias ou com a necessidade de mudar de ambiente. Agora, a urgência de recursos está os obrigando a rever estes conceitos", afirmou Fernández.

"Os requisitos abaixo do mínimo eram aceitos apenas pelos imigrantes. Mas há tantas famílias afogadas em dívidas que não vêem outra saída e aceitam qualquer oferta. Com isso, os trabalhadores estrangeiros acabam desfavorecidos na disputa", concluiu.

Praça

Uma das opções que restou aos imigrantes - e que agora também está sendo dividida com espanhóis - é a busca por trabalhos diários oferecidos durante as manhãs na praça de La Elíptica, no subúrbio de Madri. Pouco antes das 7h aparecem vans com os chamados "recrutadores".

De dentro dos veículos alguém grita que oferece trabalho para o dia. Diz quanto paga, qual o serviço e de quantos trabalhadores precisa.

Os imigrantes e espanhóis aguardam na praça a partir das 4h30 da madrugada, dispostos a receber em média 5,30 euros (cerca de R$ 16) por hora ou 37 euros (cerca de R$ 120) por dia de trabalho.

"Até o verão, em agosto, apareciam umas poucas dezenas de trabalhadores por dia e todos conseguiam trabalho, mas a polícia começou a passar por ali e os imigrantes têm ido menos. Vão se esgotando as vias para eles", disse à BBC Brasil o coordenador da Comissão Espanhola de Ajuda ao Refugiado em Madri, Joaquim Aguilar.

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