Crise leva ao fechamento de fábricas na China

Do lado de fora da fábrica de berços An Jia, em Dongguan, um grupo de trabalhadores cerca um único policial em uma motocicleta. Onde estão as três pessoas que você prendeu?, perguntam, aos gritos.

BBC Brasil |

"Devolva-as para nós!"
O policial parece pouco confortável e decide se retirar.

Os trabalhdores das fábricas daqui estão com raiva. A crise financeira mundial começou a atingi-los.

É fácil entender o por quê: uma vez que o ocidente não pode comprar tanto, a China não é capaz de vender tanto.

Em tempos melhores, a fábrica An Jia exportaria seus berços para os Estados Unidos.

Agora, seus empregados dizem que os Estados Unidos pararam de comprar. Os salários dos funcionários foram cortados em 75%.

Um homem segura dois contracheques. Um deles, recebido no mês de maio, mostra que seu salário foi 2.523 yuans, cerca de US$ 370 dólares.

O segundo, recebido em setembro, mostra que seu salário foi reduzido para 445 yuans, cerca de US$ 65.

"Nosso chefe quer se safar às nossas custas", grita Li San Le, um dos trabalhadores.

"Quando as coisas estavam indo bem, o chefe não nos deu um aumento, mas agora que está em dificuldades, quer que nós o salvemos", acrescenta uma mulher parada junto ao grupo.

Empregos escassos
Em um centro de empregos nas proximidades, grupos de homens aguardam com ar desanimado.

O artesão Lou precisa de um emprego. Esta é a primeira vez que ele tem de sair à procura de um.

"Que tipo de salário você espera receber?", pergunta o responsável pelo centro.

"Sei que as coisas estão difíceis, mas preciso de um trabalho que pague mais de 3 mil yuan", responde Lou.

"Você não vai achar isso aqui", diz o homem do centro.

Pessoas como Lou passaram suas vidas trabalhando em um país onde empregos e dinheiro nunca estiveram em falta. Mas agora as coisas mudaram.

Este ano, o ritmo de crescimento da economia diminuiu e mais de 60 mil empresas fecharam suas portas.

Há relatos de que mais de 50% das fábricas de brinquedos fecharam.

Na esquina de uma fábrica abandonada de móveis em Dongguan, uma pilha de pés de mesa, ainda por terminar, foram jogados.

A única pessoa trabalhando é uma mulher, silenciosamente recolhendo pedaços de madeira para vender como sucata.

Fora da fábrica, os dormitórios dos trabalhadores estão vazios.

Pôsteres baratos de pop stars chineses ainda estão pregados na parede - muitos dos que trabalhavam aqui eram adolescentes que tinham vindo do campo à procura de uma vida melhor.

Para casa
Ao lado, uma fábrica de sapatos ainda funciona. Os trabalhadores empilham caixas de sandálias que serão enviadas para a Europa.

"Todos estão preocupados. Não apenas os proprietários, mas os trabalhadores também", disse Sergio Sum, o diretor da fábrica, Top Sun Manufacturing Co Ltd.

Muitos trabalhadores estão tendo de voltar para os vilarejos onde nasceram.

Em meio às filas de passageiros na estação de trem de Guangzhou, um grupo de mulheres jovens sentam-se sobre pilhas de sacolas e malas. Todas usam o mesmo estilo de cabelo, com permanente.

Uma envia mensagens de texto em seu celular, decorado com penduricalhos. Elas trabalhavam em uma fábrica de televisões, até que a empresa começou a ficar sem dinheiro.

"Fazíamos horas extras", diz uma das trabalhadoras, que prefere não revelar seu nome. "Depois, disseram que trabalhássemos um dia e tirássemos um ou dois dias de folga. No final, não estávamos recebende nem o salário básico".

As longas filas nessa estação de trem vão deixar o governo da China nervoso.

O Partido Comunista ficou no poder em parte porque tornou os pobres um pouco mais ricos. Mas agora, a crise financeira mundial chegou.

Então, o que acontecerá neste país se centenas de milhões de trabalhadores não acreditarem mais que a vida pode melhorar?

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