Crise interna e isolamento internacional marcam 2009 para o Irã

Javier Martín. Teerã, 22 dez (EFE).- Os grandes protestos contra a polêmica reeleição em junho passado do presidente Mahmoud Ahmadinejad e o isolamento internacional devido a seu programa nuclear marcaram o ano de 2009 do Irã.

EFE |

A República Islâmica iniciou 2009 se preparando para comemorar os 30 anos da revolta popular que derrubou a monarquia pró-ocidental do último Xá da Pérsia, Mohamad Reza Pahlevi.

No entanto, com o passar dos meses a indignação popular evidenciou a divisão da classe política local e se transformou em um movimento de contestação social que critica não apenas o Governo, mas que também censura alguns dos princípios do regime.

A atmosfera de euforia e esperança de mudança foi gerada pela convocação para junho de eleições presidenciais que, com o tempo, mudariam o rumo do país.

A campanha eleitoral começou em um contexto de luta democrática, com dois lados bem distintos, o ultraconservador de Ahmadinejad, e o pró-reformista do ex-primeiro-ministro Mir Hussein Moussavi, apoiada por ex-líderes como Mohamad Khatami e Ali Akbar Hashemi Rafsanjani.

Depois de uma eleição com alto nível de participação da população, a esperança de mudança deu lugar primeiro ao estupor e depois à irritação popular quando o Ministério do Interior anunciou a vitória de Ahmadinejad com 69% dos votos, enquanto as pesquisas indicavam um resultado muito apertado.

Centenas de milhares de pessoas foram às ruas do país para protestar contra o resultado, indignados com as denúncias da oposição de irregularidades tanto no momento de votar como em sua apuração.

As manifestações foram reprimidas com firmeza pela Polícia, e especialmente pelos voluntários islâmicos "Basij", que patrulhavam as ruas do país.

Segundo números oficiais, cerca de 30 pessoas morreram nos distúrbios, enquanto a oposição diz que 72 perderam a vida.

Além disso, cerca de quatro mil pessoas foram detidas, entre elas diversos responsáveis do "movimento verde" e das plataformas pró-reformistas.

O Governo iraniano também acusou a oposição de instigar e participar de uma conspiração organizada pelos Estados Unidos e o Reino Unido, e tentou minimizar o impacto internacional dos protestos com a expulsão de meios de comunicação estrangeiros e a proibição de registrar o que acontecia nas ruas do país.

Também no plano internacional, a forte polêmica nuclear entre o Irã e o Ocidente se aguçou no último trimestre de 2009, após uma tentativa fracassada de reconduzir as negociações, e ameaça se agravar em 2010.

Incentivados pelo espírito de mudança promovido pelo presidente americano, Barack Obama, que expressou sua vontade de abrir uma nova etapa nas relações com Teerã, representantes do chamado grupo 5+1 e o Irã fixaram o primeiro dia de outubro como data para retomar o diálogo.

Mas as esperanças de uma saída para a crise começaram a se desvanecer quando faltavam cinco dias para a reunião, com a denúncia do próprio Obama de que o Irã construía "em segredo" e sob uma colina uma segunda planta de enriquecimento de urânio.

Surpreendido com a acusação, o regime iraniano teve de admitir que levantava uma nova instalação em uma zona desértica conhecida como Fordu, próxima à cidade santa de Qom, mas insistiu em que não tinha incorrido em ilegalidade alguma, já que teria comunicado sua existência dias antes do anúncio da Casa Branca.

O próprio diretor-geral da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), Mohamed ElBaradei, rebateu o Irã poucos dias depois, durante sua última viagem oficial a Teerã, e pediu ao regime dos aiatolás transparência e colaboração diante de uma oportunidade que definiu como quase única.

De uma reunião realizada em meados de outubro em Viena saiu uma proposta que oferecia ao Irã a possibilidade de enviar ao exterior grande parte de seu urânio a 3,5% e recuperá-lo depois enriquecido a 20%, nas condições necessárias para alimentar seu reator civil na capital.

A oferta gerou um duro debate no seio do regime, dividido desde os protestos gerados pela reeleição de Ahmadinejad.

No dia 27 de novembro, o Conselho de Governadores da AIEA aprovou, por uma arrasadora maioria e pela primeira vez em três anos, uma resolução de condenação ao Irã pelas ambiguidades de seu programa nuclear e por ter mantido a construção da planta de Fordu em segredo.

Nesta ocasião, a resposta do regime dos aiatolás foi fulminante: anunciou que reduziria ao mínimo sua colaboração com a AIEA e revelou um suposto plano para construir mais dez plantas de enriquecimento de urânio.

Nesta conjuntura, as perspectivas indicam que a crise pode deteriorar-se ainda mais ao longo de 2010, especialmente porque Obama não parece disposto a prolongar demais uma crise que muito provavelmente atrapalharia seus planos de reeleição em 2013. EFE jm/mh

    Leia tudo sobre: iG

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG