Quando chegou ao Japão oito anos atrás, o paulistano Sadao Hara, de 34 anos, não imaginava que, um dia, precisaria colher espinafre para sustentar a mulher e os dois filhos. Sem emprego na indústria, onde sempre trabalhou, o brasileiro recebe agora um terço do que ganhava e foi obrigado a adiar, por tempo indeterminado, o sonho de abrir um negócio no Brasil com o dinheiro poupado no Japão.

"A recessão econômica mundial tem atingido em cheio o setor industrial japonês, notadamente no qual os brasileiros estão concentrados", disse à BBC Brasil o economista Edson Urano, especialista em migrações internacionais, sociologia do trabalho e relações industriais.

Hara ficou desempregado em novembro do ano passado. E, segundo relatório divulgado pelo Ministério do Trabalho, Saúde e Bem-Estar do Japão, só no mês de dezembro, outros 4.300 estrangeiros foram demitidos.

Todos haviam sido contratados para o setor industrial, através de agências de emprego. Os números dos sindicatos ligados à industria do país apontam para o dado de 18.800 demissões nos três últimos meses de 2008 - grande parte desse número é formado por estrangeiros.

"Esses trabalhadores possuem contratos temporários e são os mais afetados pela atual crise", explica o economista.

Mudança radical
"A mudança no mercado de trabalho foi muito radical e negativa", afirma Walter Saito, 40 anos, dono da TS, agência de empregos para brasileiros no Japão. "Até outubro do ano passado, faltava mão-de-obra. Em novembro, as fábricas já estavam demitindo", emenda.

Sem ter idéia de quando a indústria voltará a contratar e sem qualificação profissional para disputar uma vaga melhor, a saída dos ex-operários foi aceitar salários baixos e serviços que, até então, rejeitavam.

Hara, por exemplo, ganhava até US$ 3.500 por mês. Agora, ele sabe que a média de seu salário na horta de espinafre, em Saitama, ao Norte de Tóquio, dificilmente, passará de US$ 1.100.

Com esse dinheiro, o dekassegui poderá cobrir apenas as despesas básicas da família. "É a necessidade. Com essa crise, não dá para escolher", justifica ele, que, pela primeira vez, ficou desempregado no Japão.

Vaga para cuidar de idosos
Já a agência de empregos Job Global resolveu apostar na área da saúde. Desde dezembro, quando começou a anunciar as vagas, o gerente Hiroshi Abe, 51 anos, tem recebido de 30 a 40 ligações por dia.

Porém, ele conta que cerca de 60% dos interessados são dispensados na primeira conversa por não dominarem o idioma japonês.

Abe explica que o auxiliar de enfermagem cuida de idosos japoneses e precisa fazer relatórios diários, em japonês. "Não dá para contar com intérpretes".

Alice Otani, de 36 anos, conseguiu uma destas vagas no último dia 13. A ex-operária de fábrica estava desempregada há um mês e, sem opção, aceitou trabalhar por menos da metade do salário anterior.

Alice, que vem de Registro, SP, custou a encontrar o endereço do novo local de trabalho no mapa: a pequena e pacata ilha Iwaji, cheia de moradores da terceira idade. "Mesmo assim, estou feliz porque estou aprendendo uma profissão", ressalva.

Corte de árvores
Em Shizuoka, província que concentra grande parte dos 320 mil brasileiros no Japão, a área florestal é a nova esperança. Wagner Tatehira, 30 anos, de Cuiabá, conquistou a primeira das duas vagas abertas na cooperativa de Misakubo, cidade de Hamamatsu.

Ele ainda não sabe quando vai começar a trabalhar, nem quanto vai ganhar, mas está contente.

Sem trabalho e seguro-desemprego, o jovem já não está dando conta de pagar o aluguel da quitinete, onde mora com a esposa e dois filhos em Toyokawa, na província de Aichi.

Trabalhar no meio das montanhas, ter de aprender a lidar com uma moto-serra e cortar árvores enormes não intimida o brasileiro. "Tem de dar certo, pois não tenho outra opção", revela.

Carlos Zaha, presidente da Associação Brasil Fureai, entidade criada para ajudar os brasileiros afetados pela crise, está otimista com as novas frentes de trabalho. "Acredito que os japoneses, novamente, abrirão uma porta para nós e, se soubermos aproveitá-la, nos daremos bem".

Para Urano, migrar para outras áreas pode não ser a solução, mas é um paliativo. "Há perspectiva de dois anos para a crise, portanto, a melhoria de emprego no curto prazo é muito baixa", analisa.

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