Crise financeira dá reviravolta em campanha presidencial dos EUA

César Muñoz Acebes. Washington, 17 set (EFE).- A crise nos mercados mudou da noite para o dia os assuntos e o tom da campanha eleitoral dos Estados Unidos e colocou na defensiva John McCain, candidato que defendeu uma menor regulação financeira.

EFE |

Há uma semana, o debate era sobre se o democrata Barack Obama se referia a Sarah Palin, vice-candidata do republicano McCain, quando disse que "você pode passar batom em um porco, que o mesmo continuará sendo um porco".

Esta controvérsia beneficiava, segundo os especialistas, a campanha de McCain, que acusou Obama de ser sexista. Com a crise que ronda Wall Street tudo isto são águas passadas e quem está na cadeira incômoda agora é McCain.

Sua difícil posição ficou evidente hoje, quando revisou sua postura com relação à intervenção pública da seguradora American International Group (AIG).

Em comunicado, McCain disse que o Federal Reserve (Fed, banco central americano) "se viu forçado a comprometer US$ 85 bilhões para evitar o colapso da AIG" e disse que o objetivo deve ser proteger os clientes da empresa e não seus diretores.

Ontem, por outro lado, McCain foi categórico em sua oposição de que a mão do Governo deve sustentar a AIG.

"Não, acho que o contribuinte americano não deve carregar o peso da AIG e estou contente de que o secretário (Henry) Paulson pareça ter assumido a mesma postura", afirmou então em uma entrevista à rede "ABC".

Esta opinião se enquadra na percepção republicana do Governo como um impedimento freqüente para o florescer econômico e para o livre mercado como o caminho para a prosperidade.

Com a calamidade em Wall Street, os defensores desta visão estão agora quietos em Washington e o Governo republicano colocou dinheiro público para salvar não apenas a AIG, mas também os gigantes hipotecários Freddie Mac e Fannie Mae, além do banco de investimento Bear Stearns.

Obama, por outro lado, acredita ter encontrado o calcanhar de Aquiles de seu oponente.

A intervenção na AIG "é o veredicto final da filosofia econômica fracassada dos últimos oito anos", disse hoje em comunicado.

"O senador McCain apoiou esta filosofia durante seus 26 anos em Washington", acrescentou.

Nas pesquisas, os eleitores tradicionalmente disseram que confiam mais nos democratas em questões econômicas, o que faz com que a crise de Wall Street deva ajudar Obama.

Além disso, as crises econômicas "sempre são um risco para o partido no poder, particularmente uma legenda que ocupou a Casa Branca por mais de sete anos", declarou Sebastian Mallaby, analista do instituto independente Centro de Relações Exteriores.

Estes fatores podem explicar o viés que as intenções de voto tomaram nos últimos dias.

Após a Convenção Republicana, no início de setembro, McCain eliminou a vantagem de Obama e inclusive o ultrapassou, graças principalmente à escolha de Palin como sua companheira de chapa.

Agora este vento parece ter mudado de posição e, em pouco mais de uma semana, McCain perdeu dois pontos percentuais, embora ainda tenha um de vantagem sobre Obama, informa a RealClearPolitics, entidade que faz uma média de cerca de 20 pesquisas.

Os alarmes tocaram no comitê de campanha do senador e McCain adotou um tom muito mais duro frente às companhias de Wall Street, às quais acusou hoje de viver uma "cultura de cassino" e desenvolver "uma gestão imprudente".

Em seu comunicado também pediu "regulação forte e eficiente", o que representa uma mudança palpável de suas posturas anteriores.

Como senador e presidente do Comitê de Comércio votou a favor de relaxar as normas que regulam as operações das entidades financeiras.

Por exemplo, em 1999 apoiou uma lei do então Senador Phil Gramm, um de seus principais assessores econômicos atualmente, que desmantelou os muros que separavam o setor de seguros, os bancos tradicionais e os bancos de investimento, segundo o jornal "The Washington Post".

Isto permitiu que a AIG entrasse de cabeça no negócio de aprovar títulos com garantias hipotecárias, que lhe geraram os prejuízos milionários que a afundaram. EFE cma/fal

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