Crise econômica pode representar alívio para planeta

Por Michele Kambas NICÓSIA, 7 de outubro (Reuters) - A desaceleração da economia mundial pode trazer alívio para um planeta sufocado pelas emissões de gás carbônico responsáveis por alterar o clima, afirmou nesta terça-feira um cientista ganhador do Prêmio Nobel.

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O pesquisador Paul J. Crutzen, que já aventou no passado a possibilidade de bombardear a atmosfera com partículas de enxofre a fim de esfriar a Terra, disse que as nuvens negras formadas sobre a economia mundial poderiam tornar menos pesado o fardo ambiental carregado pelo planeta hoje em dia.

Uma menor expansão da economia no mundo todo ajudaria a brecar a emissão de gases do efeito estufa e provocaria uma utilização mais cuidadosa dos recursos energéticos.

De outro lado, porém, a crise econômica poderia desviar os esforços do combate às mudanças climáticas, afirmou Crutzen, vencedor do Prêmio Nobel de Química em 1995 por seu trabalho sobre a diminuição da camada de ozônio.

"Isso é algo cruel de se dizer. Mas, se olharmos para a desaceleração da economia, haverá menos combustíveis fósseis queimando, de modo que, para o clima, isso representaria uma vantagem", disse o cientista em entrevista concedida à Reuters.

"Poderíamos verificar um acúmulo muito mais lento de gás carbônico na atmosfera. As pessoas começariam a poupar (mais energia). Mas as coisas também podem piorar, já que haveria menos dinheiro para a pesquisa e isso seria algo grave."

As emissões de CO2, geradas pela queima de combustíveis fósseis em usinas de energia, fábricas, lares e veículos, elevam-se em cerca de 3 por cento ao ano. O Painel Intergovernamental sobre as Mudanças Climáticas (IPCC) prevê que a temperatura média da Terra vai subir entre 1,8 e 4 graus Celsius neste século.

O grupo das oito potências industrializadas (G8) acatou em julho a meta de, até 2050, diminuir pela metade o volume das emissões mundiais.

Crutzen conversou com a Reuters em Chipre, para onde viajou a fim de participar de um encontro no Instituto Chipre, uma fundação de pesquisa.

O cientista provocou polêmica quando, em 2006, publicou um artigo sugerindo a disseminação de enxofre, um poluente comum, na estratosfera terrestre (a cerca de 16 quilômetros de altitude), como uma forma de combater o efeito estufa.

Crutzen acredita que a dispersão de 1 milhão de toneladas de enxofre na estratosfera a cada ano, por meio de balões ou foguetes, ajudaria a rebater a luz do Sol e a esfriar o planeta.

Pesquisadores observaram que a temperatura média do globo caiu 0,5 grau centígrado quando, em 1991, o monte Pinatubo (Filipinas) entrou em erupção, lançando dióxido de enxofre na atmosfera. Crutzen disse que a idéia havia sido sugerida por um cientista russo cerca de 30 anos atrás.

"Não estou dizendo que deveríamos fazer isso. Mas essa é uma das nossas opções caso continuemos a enfrentar uma situação como a de hoje. Deveríamos estudar essa possibilidade", afirmou. "Se olharmos para daqui a 10 anos, 20 anos, e nada tiver sido feito (para enfrentar o aquecimento), então teremos um problema muito grave a ser enfrentado."

O enxofre é um dos componentes da chuva ácida, fenômeno que produz efeitos danosos sobre plantas e sobre os seres aquáticos.

"A chuva ácida é provocada pelas emissões de dióxido de enxofre vindas do solo, das chaminés, e essas emissões são de 50 milhões de toneladas por ano. O experimento na estratosfera envolveria 1 milhão de toneladas de enxofre por ano. O montante seria insignificante", disse.

O empreendimento representaria algo extremo a ser adotado no caso de uma situação extrema, afirmou Crutzen.

Em um relatório de 2007, o IPCC, órgão ligado à Organização das Nações Unidas (ONU), disse que tais opções de geoengenharia mostravam-se especulativas e não contavam com provas materiais, além de seus efeitos serem, em certa medida, imprevisíveis.

No mais, não há estimativas confiáveis sobre o custo de uma empreitada do tipo, afirmou o IPCC.

"O preço não é um grande fator. Ele seria irrisório", disse Crutzen. "O custo seria de algo entre 10 milhões e 20 milhões de dólares ao ano."

((Tradução Redação Rio de Janeiro; 55 21 2223-7128))

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