Cairo, 4 mar (EFE).- A América do Sul e os países árabes deram hoje um novo passo para aproximar regiões afastadas historicamente, mas seus avanços foram ofuscados por uma crise financeira mundial que dominará os vínculos em curto prazo.

Essa foi a opinião dos titulares reunidos na 3ª Reunião de Ministros das Relações Exteriores da América do Sul e dos Países Árabes (Aspa), encontro preparatório para a cúpula do grupo que acontecerá em 31 de março em Doha, capital do Catar.

Já desde a abertura das sessões, o ministro das Relações Exteriores brasileiro, Celso Amorim, sugeriu que, na cúpula de Doha, fossem estudados mecanismos para proteger os países das duas zonas de crises financeiras como a atual.

As tentativas de aproximar as duas regiões começaram a partir da primeira cúpula, realizada no Brasil, com frutos em áreas como o comércio que foram destacados na reunião de hoje.

Amorim disse, por exemplo, que, se antes dessa cúpula o Brasil tinha uma troca comercial com os países árabes de US$ 6 bilhões, agora chega a US$ 20 bilhões.

"Se estes números forem olhados em um tempo tão curto, as mudanças foram grandes", disse o ministro, em seu discurso.

Sobre o assunto do dia, o ministro das Relações Exteriores peruano, José Antonio García Belaúnde, lembrou que, atualmente, "a crise é o tema, e não pode deixar de estar na cúpula de Doha", em declarações aos jornalistas no final da reunião de hoje.

"Existe uma total concordância entre os árabes e nós de que não criamos a crise, mas a sofremos, e queremos criar mecanismos para poder levá-la", disse o ministro das Relações Exteriores paraguaio, Alejandro Hamed, ao avaliar a reunião de hoje diante dos jornalistas.

Ministros e altos funcionários de dez países sul-americanos e de 22 nações árabes analisaram na sede da Liga Árabe um projeto de minuta que será apresentado na cúpula de Doha, e aproveitaram para repassar os temas da agenda internacional.

O ministro de Exteriores argentino, Jorge Taiana, foi além e fixou quatro áreas na qual a comunidade internacional deveria se esforçar, temas que se comprometeu a levar para a cúpula do Grupo dos Vinte (G20, os países mais ricos e principais emergentes) que será realizada em Londres, no início de abril.

Essas áreas citadas por Taiana são a coordenação macroeconômica internacional, a transformação dos organismos multilaterais de crédito, uma "nova arquitetura financeira com mais atores e que favoreça o crédito ao desenvolvimento" e, finalmente, a transparência e a regulação do setor financeiro, incluindo o fim dos paraísos fiscais.

García Belaúnde reconheceu que os efeitos da crise ofuscaram as tentativas de vincular os países árabes e a América do Sul.

O ministro paraguaio disse que, durante a reunião de hoje, fora dos temas regionais e pontuais, como a crise na Faixa de Gaza e o conflito em Darfur, "indubitavelmente, o mais importante foi colocar posturas a respeito da crise econômica internacional".

Mesmo assim, os ministros se empenharam em avançar para a cooperação entre as duas regiões, dentro de um processo que, segundo vários participantes destacaram, renderá frutos para as duas regiões e promoverá os laços sul-sul.

"Este mecanismo precisa ser olhado da perspectiva de um processo (...). À medida que vamos nos aproximando e temos estas reuniões, vão se estabelecendo novos vínculos", acrescentou o ministro peruano.

Nos discursos oficiais e nas declarações de corredores, os ministros expressaram sua preocupação com a situação no Oriente Médio, e disseram que a América do Sul pode ter um papel próprio nos esforços para levar a paz à região.

"A América Latina, e pelo menos a América do Sul, pode participar um pouco mais ativamente deste tipo de problema, porque não temos interesses na região (no Oriente Médio) que possam afetar nossa participação", afirmou o ministro paraguaio.

Depois dos discursos iniciais da sessão na manhã, a reunião continuou a portas fechadas nas deliberações da tarde, quando começou a ser analisada a minuta da Declaração de Doha que será assinada na próxima cúpula.

Os ministros árabes, após concluída sua reunião com os sul-americanos, reuniram-se a portas fechadas para uma sessão de emergência convocada a fim de analisar a decisão do Tribunal Penal Internacional (TPI) de ordenar a detenção do presidente do Sudão, Omar al-Bashir, por seu papel no conflito em Darfur.

A reunião ministerial também aprovou que a cúpula seguinte à do Catar entre América do Sul e países árabes aconteça em 2011 no Peru.

García Belaúnde disse que sua proposta de que o Peru seja sede de cúpula, que foi colocada em seu discurso, foi aceita pelas partes reunidas hoje. EFE ag/an

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