Crise econômica é desafio eleitoral para McCain e Obama

O estado da economia já era o tema central da eleição americana mesmo antes do começo da crise financeira desta semana. Agora o assunto está ofuscando todos os outros temas.

BBC Brasil |

Muitos políticos evitaram fazer comentários logo após o colapso do banco Lehman Brothers, com medo de provocar ainda mais reações nos mercados. Mas passado o começo da crise, as duas campanhas já mergulharam no assunto.

Para o candidato democrata, Barack Obama, a crise econômica é uma chance de se deixar para trás o frisson provocada pela indicação de Sarah Palin como vice da chapa republicana e focar na mensagem da campanha democrata: de que os republicanos arruinaram a economia.

O diretor do instituto de pesquisa Pew Research Center, Michael Dimock, disse à BBC que a crise beneficia Obama de duas formas. Ela reforça a visão geral entre os eleitores de que os Estados Unidos estão "no caminho errado" e dificulta a tarefa do candidato republicano, John McCain, de se distanciar do atual governo.

Pesquisas mostraram que os eleitores confiam mais nos democratas do que nos republicanos para conduzir a economia.

Dimock disse que a melhora registrada recentemente por McCain nas pesquisas de opiniões ocorreu porque as pessoas gostam do seu caráter e acreditam que ele é uma pessoa experiente, mas não significa que elas apóiam as suas políticas.

Resposta ambígua
O dilema de McCain ficou evidente na sua resposta ambígua à crise na segunda-feira. Ele começou o dia elogiando o governo por não gastar dinheiro dos contribuintes para resgatar o Lehman Brothers.

À tarde, falando em Orlando, na Flórida, McCain inverteu o discurso, dizendo que a economia está em crise. Enquanto isso, Sarah Palin prometeu limpar "erros de administração e abusos" em Washington e Wall Street, atacando as pessoas que "estiveram dormindo e foram ineficientes".

Obama aproveitou a oportunidade para chamar os comentários de McCain de "perturbadoramente fora da realidade".

Ele disse que a crise financeira mais séria desde a Grande Depressão foi causada por "oito anos de políticas que acabaram com as proteções dos consumidores, afrouxaram supervisões e regulamentos, e encorajaram bônus extras para diretores executivos, ignorando os americanos da classe média".

Mas ele não repudiou as medidas tomadas pelo secretário do Tesouro, Henry Paulson, e pelo diretor do Federal Reserve, Ben Bernanke, nem propôs políticas novas.

Divisões internas
Nos bastidores, há divisões dentro das campanhas dos republicanos e dos democratas sobre o grau de intervenção do governo na economia no futuro.

Barney Frank, o influente parlamentar democrata que dirige o comitê de serviços financeiros no Congresso, foi um dos poucos políticos que se manifestou, afirmando que mais intervenção federal pode ser necessária "já que o mercado piorou para um estado tão terrível que as intervenções específicas não ajudaram".

Ele acredita que o próximo presidente terá de pensar na criação de um equivalente à Resolution Trust Corporation, a entidade de US$ 500 bilhões que assumiu todas as instituições de poupança e empréstimo que quebraram nos anos 80 - durante a última grande crise bancária - e as revendeu.

No entanto, para Doug Elmendorf, que substituiu o atual conselheiro econômico de Obama no instituto de centro-esquerda Brookings Institution, Paulson e Bernanke tomaram as medidas corretas para ajudar os mercados, sem comprometer demais o governo.

'Pagar a conta'
Divisões parecidas aparecem no lado republicano.

Dean Mitchel, do Cato Institute, argumenta que o governo está errado em subsidiar hipotecas às custas do resto da economia.

Ele diz que "as pessoas que tocam em um fogão quente precisam aprender que ele queima" e que investidores e mutuários devem pagar o preço da imprudência - uma visão que McCain já manifestou no passado.

Mas para o ex-integrante do governo Bush J.D. Foster, agora na Heritage Foundation, o resgate foi um "mal necessário". Para ele, o público "comeu seu almoço" (se beneficiando de empréstimos baratos) e agora precisa "pagar a conta".

Deixar as instituições falirem seria um desastre, disse Foster, mas ele argumenta que elas tinham problemas estruturais desde o começo e poderão agora ser corrigidas.

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