Representantes do Brasil e da Argentina chegam divididos à reunião do Mercosul em Brasília, nesta segunda-feira, que vai discutir o impacto e eventuais medidas para conter a crise econômica internacional. Uma das principais divergências é sobre como reagir à crise do ponto de vista comercial.

A Argentina vem reivindicando publicamente o aumento do protecionismo dentro do bloco.

Segundo uma fonte do ministério das Relações Exteriores do país, os argentinos vão levar à reunião a proposta de aumento da Tarifa Externa Comum (TEC) do bloco para produtos importados de países asiáticos.

O governo brasileiro, porém, vem dando sinais de que não concorda com a idéia e de que não pretende discutir o assunto na reunião. O ministro da Fazenda, Guido Mantega, já afirmou não acreditar que aumentar tarifas neste momento seja uma boa alternativa.

Em uma entrevista recente, o ministro afirmou que "neste momento (de crise), não devemos tomar medidas protecionistas em nenhum lugar. O protecionismo foi o que derivou na crise (econômica mundial) de 1929, quando os países se fecharam".

Para o presidente do Parlamento do Mercosul, o deputado federal Dr. Rosinha, que foi convidado para a reunião, o aumento não é uma solução. "Se os argentinos acham que é colocar barreira sobre produtos importados é a melhor saída, eles não vão se sair bem dessa crise."
O governo argentino já impôs neste mês restrições não-tarifárias a uma lista de mais de 21 mil produtos importados, inclusive alguns brasileiros.

Irritação
Os argentinos também se mostraram irritados com a idéia do Brasil de fazer uma reunião ampla, envolvendo não apenas os membros plenos do bloco, mas também todos os membros associados, o que além de Venezuela, inclui Colômbia, Equador, Bolívia, Peru e Chile.

Uma fonte do governo argentino afirma que o país preferia uma reunião separada para os membros plenos poderem discutir ações concretas, como a ampliação da TEC. A mesma fonte diz que a idéia inicial da reunião partiu do país justamente com essa intenção.

Na opinião de analistas políticos argentinos, o Brasil teria ampliado a reunião em parte para "diluir" possíveis atritos com os argentinos e tornar o resultado do encontro mais vago.

O governo brasileiro afirma que convocou a reunião para "trocar experiências" sobre como os países estão agindo em relação à crise, abrir canais de comunicação e estudar possíveis ações conjuntas. No entanto, fora de ações no âmbito dos acordos comerciais do Mercosul, não existem propostas claras de ação conjunta.

De acordo com fontes do Itamaraty, após o encontro deverá ser lançado um comunicado reforçando essas intenções.

As divergências entre Argentina e Brasil não deverão ser as únicas no encontro em Brasília. Outro assunto espinhoso nos bastidores da reunião deverá ser o retorno das disputas diplomáticas entre os argentinos e uruguaios.

Nesta semana, o presidente uruguaio, Tabaré Vázquez, afirmou que veta o nome de Nestor Kirchner para secretário-geral da Unasul (União de Nações Sul-americanas). O marido da atual presidente foi sugerido pela presidente chilena, Michelle Bachelet.

Na Argentina, a notícia foi considerada pelo governo como um retorno à guerra diplomática entre os dois países que se estende desde os problemas gerados pela construção de fábricas de papel do lado uruguaio de um rio que separa os dois países.

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