Crise ameaça liberdade de imprensa nas sociedades democráticas

Delia Millán. Redação Central, 2 mai (EFE).- A crise econômica que afeta particularmente o mundo da comunicação constitui um perigo para a liberdade de expressão devido ao fechamento de veículos de imprensa, redução de recursos e efetivos e precariedade de trabalho, que faz mais arriscada a crítica, segundo especialistas.

EFE |

Amanhã, no Dia Mundial pela Liberdade de Imprensa, será prestada homenagem aos jornalistas mortos no exercício de sua profissão em conflitos ou locais onde os poderes políticos ou outros atores não toleram a livre informação.

No entanto, nas sociedades democráticas também há perigo de censura mais ou menos indireta, especialmente em tempos de crise.

"A crise econômica e especialmente a da imprensa (derivada também do auge de internet) fragiliza financeiramente os veículos, aos quais faltam recursos para correspondentes e jornalismo investigativo, que são a essência do jornalismo de qualidade", resumiu à Agência Efe Stephan Weichert, analista do Instituto para o Estudo de Políticas de Comunicação, com sede em Berlim.

No último relatório sobre Excelência no Jornalismo do Instituto Pew, dos Estados Unidos, repórteres que cobriram a última campanha à Casa Branca reconheceram ter feito menos apurações aprofundadas por falta de meios e de tempo, pois, além da redução de pessoal, precisaram alimentar diferentes canais de informação multimídia.

Além disso, o desaparecimento de jornais afeta a liberdade de expressão, que está "diretamente vinculada à diversidade de meios.

Quanto menos veículos, mais 'monopólio' e mais capacidade de controle", disse à agência Efe o analista político e ensaísta espanhol Ignacio Sotelo.

Nesta situação, ambos os analistas veem um perigo em que os veículos recorram à intervenção do Estado.

"Essa dependência pode levar a uma instrumentalização por parte da política", diz Weichert, que cita como exemplos nefastos a cumplicidade entre políticos e alguns grupos de comunicação da França e da Itália.

"O vínculo institucional se agrava muitíssimo em momentos de crise", acrescenta Sotelo, argumentando que "quando pedem apoio oficial, os veículos de imprensa se tornam mais tolerantes com o Governo de turno, portanto a crise equivale a um enfraquecimento da crítica".

Nos Estados Unidos os institutos que analisam a evolução na imprensa temem principalmente um maior poder de pressão das empresas anunciantes ou dos acionistas.

Segundo um estudo sobre autocensura do Instituto Pew, 52% dos jornalistas americanos confessam ter subestimado um tema importante por ser complexo demais, 35% por ser uma informação contrária à empresa e outros 29% por ser contrário aos interesses dos anunciantes.

Nesta semana, 55 jornalistas do "Chicago Tribune" denunciaram em um e-mail que a direção do jornal a opinião de alguns assinantes antes de publicar determinadas matérias.

"É um princípio fundamental do jornalismo não dar a ninguém fora da redação a opção de decidir se ela deve publicar uma história, sejam anunciantes, políticos ou leitores", diz a carta.

Outro fenômeno que se agrava em tempos de crise, quando as empresas optam por demitir empregados, é o que Sotelo chama de "princípio de adaptação ao meio".

Segundo ele, "quando escasseiam os postos de trabalho, as vozes independentes descem muitíssimo de tom", diz.

Por outro lado, em momentos de crise ou de perigo, segundo Weichert, acontece um fenômeno psicológico entre os jornalistas -"que, afinal de contas, são seres humanos"- que é a tendência a tentar não fragilizar com críticas uma ação política.

Assim aconteceu, segundo ele, nos EUA onde, após o trauma do atentado de 11 de setembro, os jornalistas evitaram, como recentemente reconheceu, entre outras, a consagrada repórter da "CNN" Christiane Amanpour, fazer perguntas pertinentes sobre a legitimidade da intervenção no Iraque.

Agora também ocorre um fenômeno parecido com a informação sobre o presidente Barack Obama; segundo o relatório anual do Instituto Pew, 42% dos americanos, inclusive 28% dos eleitores democratas, consideram que a imprensa tomou partido de Obama nas últimas eleições.

Atualmente, apenas algumas vozes pedem que a imprensa exerça um papel mais crítico em sua cobertura do presidente e são os veículos satíricos, como "The Onion" -que já tomaram distância com suas críticas a Bush após o 11-9-, que denunciam esta "lua-de-mel" do jornalismo com Obama.

Apesar de todos estes problemas para a sobrevivência do jornalismo de qualidade, Weichert considera que este é irrenunciável, porque em um mundo onde proliferam cada vez mais os blogs e as páginas de contato o público vai precisar mais do que nunca de orientação.

Entre as soluções cogitadas está a de transformar os jornais em fundações ou criar plataformas digitais de promoção de diferentes veículos de imprensa afins.

Em todo caso, diz Weichert, a convivência do jornalismo tradicional e a chamada "informação cidadã" que se dá na internet é possível e desejável, pois os primeiros podem seguir como meios de referência, mas os segundos atenuarão "saudavelmente" sua influência. EFE dm/jp

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