Crise alimentar domina discussões em reunião da ONU sobre desenvolvimento

A décima segunda Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (UNCTAD), em Gana, examinou nesta segunda-feira o que pode ser feito para que a África se torne um continente próspero, apesar das dificuldades em cumprir o objetivo de reduzir pela metade a pobreza antes de 2015, prazo fixado pela própria ONU.

Redação com agências internacionais |

"A África subsaariana está em risco, nenhum país sequer da região está alinhado com os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio para 2015", alertou o secretário-geral da ONU, Ban Ki-Moon, durante um discurso cujo foca era, paradoxalmente, o controle do comércio e do desenvolvimento para aumentar a prosperidade africana.

Segundo o Banco Mundial (Bird), essa meta pode sofrer um atraso de sete anos se os preços dos alimentos continuarem subindo.

"Peço ao mundo todo que tome decisões válidas para garantir o futuro dos mais pobres entre os mais pobres, com prioridade para mulheres e crianças", declarou Ban.

"Os preços altos (dos produtos alimentícios de primeira necessidade) ameaçam os avanços alcançados até aqui na luta contra a fome e desnutrição", lamentou o secretário-geral.

Ban Ki-Moon lançou um duplo apelo: pediu aos países africanos que estãos e beneficiando com a alta dos preços das matérias-primas, principalmente os produtores de petróleo, que aumentem seus investimentos; por outro lado, pediu aos doadores internacionais que cumpram com seus compromissos financeiros.

No dia 6 de abril, os países desenvolvidos do G8 reiteraram em Tóquio seu compromisso de aumentar a ajuda às nações pobres. A Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE), no entanto, duvida disso, já que em em 2007 as contribuições dos países ricos para o desenvolvimento dos pobres diminuiu 8,4%.

Retomando um de seus pedidos feitos no domingo, que teve eco em um discurso do presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva, Ban exortou os países desenvolvidos a aumentar o corte sobre os subsídios agrícolas concedidos aos produtores e à exportação para facilitar um acordo nas chamadas negociações da rodada de Doha, na Organização Mundial do Comércio (OMC).

A reunião de Acra, capital de Gana, acontece num momento em que essas negociações se encontram congeladas, devido a um enfrentamento entre o Norte e o Sul em torno da comercialização de produtos agrícolas.

"Está na hora das nações mais ricas reformularem seus programas antiquados de subsídios agrícolas. Eles penalizam de forma desproporcional os países pobres e contribuem para a crise atual", comentou Lula no domingo.

Em uma coluna publicada pelo jornal Financial Times nesta segunda-feira, o diretor geral do Fundo Monetário Internacional (FMI), Dominique Strauss-Kahn, estimou que a conclusão da rodada de Doha contribuiria para a luta contra a alta dos preços agrícolas.

Strauss-Kahn falou em um "problema humanitário sério" que precisa de uma resposta "audaz", afirmando que o FMI "dará apoio financeiro rápido", já que "temos uma responsabilidade moral de levar comida aos pobres de novo".

Durante os próximos quatro dias, os participantes da conferência analisarão, entre outros temas, como melhorar os sistemas monetário e financeiro internacionais para evitar crises futuras e como incentivar as capacidades comerciais e de produção.

Morales culpa biocombustíveis

O presidente da Bolívia, Evo Morales, criticou na segunda-feira na ONU a expansão dos biocombustíveis que usam alimentos como matéria-prima e o capitalismo, que transformou o planeta em 'mercadoria' .

O indígena esquerdista disse estar 'pela primeira vez' de acordo com organismos internacionais como o Fundo Monetário Internacional e o Banco Mundial, que reconheceram que os biocombustíveis estão provocando altas nos preços dos alimentos e uma crise alimentar global.

Mas Morales pediu mais ações dessas instituições, afirmando que o alerta não deveria terminar só na mensagem.

'Quisera ... que o FMI e o Banco Mundial implementassem políticas para frear essa classe de políticas como o biocombustíveis, de maneira a evitar a fome e a miséria para nossos povos', disse Morales no Fórum de Assuntos Indígenas da ONU, em Nova York.

O FMI e o Banco Mundial alertaram que a alta no preço do trigo, do arroz e de outros alimentos pode levar 100 milhões de pessoas à pobreza e gerar instabilidade política, como ocorreu recentemente no Haiti e em alguns países da África e Ásia.

Apesar disso, afirmaram que a crise é provocada não só pelos biocombustíveis, mas também pelo aumento da demanda alimentar na China e na Índia e por desastres climáticos que afetaram as colheitas.

Morales defendeu na ONU a visão indígena de harmonia com a natureza e um 'socialismo comunitário' que incorpore a mensagem de preservação do planeta.

Por outro lado, condenou o capitalismo como um sistema que explora a 'mãe terra' e promove 'um desperdício de energia, principalmente fóssil'.

Além disso, afirmou que os problemas gerados pelas mudanças climáticas são produto do sistema capitalista que 'saqueia' os recursos naturais e explora os seres humanos. 'A terra não pode ser entendida como uma mercadoria', acrescentou.

(*Com informações das agências Reuters e AFP)

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