Criminoso de guerra Ratko Mladic comparece à justiça na Sérvia

Processo para extraditar general para Haia pode demorar 7 dias; ele tinha duas pistolas ao ser preso, mas não ofereceu resistência

iG São Paulo |

O ex-comandante do Exército servo-bósnio Ratko Mladic , de 69 anos, compareceu nesta quinta-feira a uma sessão fechada em uma corte de Belgrado horas após sua prisão ter sido anunciada pelo presidente da Sérvia, Boris Tadic. No entanto, a audiência e seu interrogatório foram suspensos logo depois por faltar um exame médico do acusado e por sua condição de saúde, disseram seus advogados.

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Foto divulgada pelo governo sérvio mostra Ratko Mladic, ex-comandante do Exército servo-bósnio, comparecendo à corte de Justiça em Belgrado
As autoridades trabalham para extraditá-lo para o tribunal de crimes de guerra da ONU  em Haia, Holanda. Como é provável que ele entre com uma apelação contra essa medida, o processo pode demorar até sete dias.

O implacável líder militar, que é acusado de ter orquestrado o massacre de Srebrenica , a pior matança de civis na Europa desde a Segunda Guerra Mundial, foi preso ao amanhecer na casa de um parente em uma minúscula vila sérvia depois de uma caçada de 16 anos. Ele tinha duas pistolas quando foi preso, mas não apresentou nenhuma resistência e parecia envelhecido e pálido, disseram autoridades e a mídia sérvias.

Ao comparecer à corte, sua aparência era frágil e ele caminhava devagar escoltado por dois guardas. Ele vestia uma jaqueta azul marinho e um boné de beisebol que permitia que seus cabelos grisalhos escapassem pelos lados. Na TV estatal, foi possível ouvi-lo dizer "bom dia" para alguém na corte.

A prisão de Mladic retirou o principal obstáculo para os esforços do governo de tendência ocidental da Sérvia de integrar a União Europeia e de reabilitar a imagem do país como um Estado pária que abrigou o homem responsável pelas piores atrocidades das guerras dos Bálcãs dos anos 1990.

Mladic era o mais procurado criminoso de guerra da Europa e o mais proeminente acusado de crimes de guerra e genocídio que ainda estava foragido nas guerras dos Bálcãs.

Ele estava foragido desde 1995, quando foi indiciado pelo Tribunal de Guerra da ONU em Haia, Holanda, por genocídio pelo massacre de até 8 mil muçulmunos bósnios na cidade de Srebrenica , em 1995, e pelo cerco brutal de 43 meses a Sarajevo durante a Guerra da Bósnia (1992-1995). O conflito deixou mais de 100 mil mortos e expulsou outro 1,8 milhão de suas casas.

O presidente da Sérvia confirmou a prisão de Mladic após a realização de testes de DNA. "Em nome da República da Sérvia, anunciamos que Ratko Mladic foi preso. O processo de extradição está em curso", disse em Belgrado, referindo-se à transferência do ex-comandante para Haia.

Tadic afirmou que Mladic foi detido na Sérvia, país que durante muito tempo disse que não poderia encontrar um homem visto como herói por muitos sérvios. "Isso retira um fardo pesado da Sérvia e vira uma página de nossa desafortunada história", declarou o presidente.

Mladic foi preso no vilarejo de Lazarevo, perto da pequena cidade de Zrenjanin, no nordeste do país, a cerca de 100 quilômetros da capital Belgrado, informou um oficial de polícia.

Sua detenção é "resultado de uma cooperação completa entre a Sérvia e o Tribunal de Haia. No dia de hoje, fechamos um capítulo da história de nossa região, que nos levará a uma reconciliação completa", disse o presidente sérvio.

Um amigo da família de Mladic disse à Reuters que ele foi levado ao quartel-general da agência de inteligência sérvia após uma autoridade do Ministério do Interior dizer que a polícia havia detido alguém que acreditava ser ex-comandante e estava verificando sua identidade. Autoridades informaram que o homem foi detido com documentos no nome de Milorad Komadic e sua prisão aconteceu graças a uma denúncia anônima.

Repercussão

O procurador-geral do Tribunal Penal Internacional para a Antiga Iugoslávia (TPII), Serge Brammertz, reconheceu "o trabalho" das autoridades sérvias para deter Mladic. "Agradecemos (às autoridades sérvias) o cumprimento de suas obrigações para o tribunal e a justiça", indicou em comunicado, no qual destaca os "esforços da comunidade internacional ao apoiar as medidas que asseguraram" a detenção de Mladic.

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Presidente da Sérvia, Boris Tadic, anuncia prisão de ex-comandante servo-bósnio Ratko Mladic durante coletiva em Belgrado
A União Europeia disse que a detenção de Mladic mostrará que a Sérvia, que sob o governo do falecido Slobodan Milosevic armou e financiou as forças servo-bósnias durante a guerra, deseja levar adiante sua adesão à União Europeia.

A chefe das Relações Exteriores da UE, Catherine Ashton, elogiou a prisão e disse que ele deveria ser enviado ao tribunal para crimes de guerra sem demora. "Esse é um passo importante para a Sérvia e para a Justiça internacional", disse em comunicado. "Esperamos que Ratko Mladic seja transferido para o TPII sem demora. A total cooperação com o TPII segue sendo essencial para o caminho da Sérvia rumo a seu ingresso na UE", afirmou.

No encontro do G8 em Deauville, França, o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, aplaudiu a "determinação" do presidente sérvio de prender Mladic. "Cumprimento o presidente Tadic e o governo da Sérvia por sua determinação em garantir que Mladic fosse encontrado e enfrentasse a Justiça. Esperamos sua transferência expeditiva para Haia", disse.

Obama disse que a prisão de Mladic representava "um dia importante para as famílias das diversas vítimas de Mladic, para a Sérvia, a Bósnia, para os Estados Unidos e para a Justiça internacional". "Apesar de não podermos trazer de volta aqueles que foram assassinados, Mladic deverá responder agora a suas vítimas a ao mundo em uma corte legal", disse.

Sobreviventes muçulmanos bósnios disseram que a notícia causa um sentimento misto. "Estou feliz por estar vivo para testemunhar sua prisão, e ao mesmo tempo lamento muito que outras vítimas de Srebrenica não viveram para testemunhar este momento," disse Munira Subasic, que perdeu o filho e o marido quando soldados servo-bósnios sob o comando de Mladic tomaram Srebrenica, designada na época como "área segura pela ONU". 

*Com AP, AFP, BBC, EFE e Reuters

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