Crimes com facas preocupam pais brasileiros em Londres

LONDRES - O primeiro-ministro da Grã-Bretanha, Gordon Brown, juntamente com figuras proeminentes do país e familiares de vítimas, se uniram na última quinta-feira para lançar uma nova campanha nacional contra os crimes com facas. Apesar dos esforços para combater os esfaqueamentos no país, as notícias sobre este tipo de violência ganham cada vez mais destaque nos jornais britânicos e contribuem para o clima de preocupação entre a população local. Muitos brasileiros que vivem em Londres dizem temer pela vida de seus filhos adolescentes, faixa etária mais atingida pelos crimes deste tipo na cidade.

Carolina Ribeiro Pietoso, repórter iG em Londres |

"Essa questão me preocupa muito. Quase todas as semanas saem nas manchetes dos jornais casos de jovens que foram esfaqueados, morreram ou estão gravemente feridos por causa dessa onda de crimes com facas. É muito triste ver crianças matando crianças por nada", diz Gabriela Finimundo, 32, mãe de Mateus, 14, que diz conhecer muitos jovens envolvidos neste tipo de crime na sua escola. "Muitas vezes eu vou da escola para casa com medo de algo acontecer", ele conta.

Ana Luiza Russo, 32, saiu de São José dos Campos para São Paulo e de lá para Londres em busca de uma vida melhor para a filha Suellen, de 15 anos. "Colégio público no Brasil não tem a mesma condição de ensino que os daqui. Mas no Brasil existe uma separação social maior, então a gente sabe que tem violência na periferia, mas fica longe. Aqui o problema está mais perto e isso preocupa mais, mas não quer dizer que seja novo", ela diz.

Suellen estuda na escola católica St. George, no bairro de Maida Vale, onde a violência entre os estudante era muito grande nos anos 1990 e resultou no assassinato do diretor Philip Lawrence, esfaqueado na frente da instituição pelo então aluno Learco Chindamo em dezembro de 1995. 


As brasileiras Suellen e Luana dizem conhecer alunos que vão armados para a escola

"A escola passou por uma reforma e ficou muito melhor. Temos inspetores que acompanham o intervalo e usam um megafone para chamar a atenção dos desordeiros", conta Suellen. Mas, segundo sua amiga Luana Bazon Mesquita, 16 anos, mesmo assim as brigas são constantes. "A gente conhece meninos que andam armados. Na série oito pegaram nosso colega de classe Elijah com uma faca e nós sabemos que ele é líder de uma gangue. Mas ele não foi expulso porque isso não aconteceu dentro da escola".

A mãe diz que tenta orientar Suellen da melhor forma possível. "A educação tem que começar dentro de casa. Eu digo que ela tem que saber com quem anda e acho que o que leva as crianças a esse tipo de ato é a desestrutura familiar. Ela não pode ignorar o menino que anda com faca para não criar animosidade, mas também não dá para manter uma amizade com ele", ela afirma.

A avó de Suellen, Maria Clara Amaral, em visita a filha e neta em Londres, contou que conversaram muito sobre a violência com facas na Grã-Bretanha. "Aqui falta opção para os jovens. No Brasil essa faixa etária tem os shoppings, as baladinhas só para eles. Achamos até que os shoppings surgiram dessa necessidade de segurança", ela disse.

Apesar da violência na Inglaterra ser diferente da que existe no Brasil, Júlia Penido, 37, diz temer pela segurança de Maria Júlia, 14, da mesma forma. "Uma menina uma vez encrencou com ela para se exibir para as amigas e minha filha teve o nariz quebrado, além de precisar ficar 'enjaulada' em casa porque eu tinha medo que algo pior acontecesse", ela conta. Para ela os jovens não têm problemas sérios no país e vão atrás deles. "Os adolescentes aqui planejam engravidar para receber dinheiro e casa do governo", diz Júlia, para quem essa facilidade de benefícios e apoio governamental "deixa eles muito mal acostumados".

Maria Júlia diz não temer a violência em seu bairro porque na região em que vive, no oeste de Londres, os crimes deste tipo não são frequentes. Mesmo assim, ela confessa que "cerca de 30% das pessoas na minha escola andam com facas. Não conheço ninguém que tenha sido atacado, mas tenho amigos que foram assaltados e ameaçados com facas".

Arma como pressão social

Os jovens brasileiros dizem acreditar que o porte de facas entre pessoas de sua idade não passa de um fator de pressão social. "As pessoas andam com facas para impressionar e conquistar uma reputação que diga 'não mexa com aquele cara porque ele tem uma faca'", diz Maria Júlia. Para Luana, "os jovens acham que isso é legal porque estão na escola e não pensam nas consequências, só na popularidade. Mateus concorda, "hoje em dia, o mais forte infelizmente é o melhor e eles acham que andando armados são fortes."

A coalização " No To Knives " (Não às Facas, em tradução livre) almeja evitar o porte de facas entre jovens de 10 a 16 anos, ressaltando suas consequências físicas e emocionais. "O mais importante que podemos fazer é conscientizar todos em nossa comunidade sobre as facas. Nós não aceitaremos facas nas nossas ruas, iremos proteger nossos jovens e parar os crimes com facas que já causaram tantos estragos, tanta dor e tanta angústia neste país", afirmou o primeiro-ministro Gordon Brown durante a cerimônia de lançamento da campanha.

Somente neste ano, 34 jovens entre 10 e 21 anos foram mortos esfaqueados na Grã-Bretanha, 23 deles em Londres.

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