As crianças são as maiores vítimas do ciclone Nargis que assolou Mianmar: elas representam quase a metade dos mortos; muitos jovens sobreviventes traumatizados e órfãos já estão sendo alvo de traficantes de seres humanos, alertaram nesta terça-feira organizações humanitárias.

A catástrofe natural que devastou no dia 3 de maio regiões do sul de Mianmar é uma das piores da história recente, e, como em outros dramas que acompanharam terríveis desastres naturais, as crianças são evidentemente as mais vulneráveis.

Dos cerca de 62.000 mortos e desaparecidos, mais de 40% são crianças, indicou a organização internacional Save the Children, uma das raras a serem autorizadas a trabalhar em Mianmar.

O enorme número de jovens mortos em Mianmar é explicado em razão da demografia deste país pobre do Sudeste Asiático: 40% dos cerca de 50 milhões de habitantes têm menos de 18 anos, revelou Dan Collinson, porta-voz na Tailândia da Save The Children.

"As crianças são as mais vulneráveis" e, "para ser franco", a quantidade de jovens mortos é "muito superior a 40%", previu Collinson.

As primeiras imagens divulgadas após a passagem do Nargis mostravam vários corpos de crianças boiando em pântanos ou pendurados em árvores.

Entre aquelas que sobreviveram, centenas estão órfãs ou foram separadas de seus pais, afirmou ainda Collinson.

No Delta do Irrawaddy (sudoeste) crianças descalças eram vistas na beira das estradas pedindo ajuda a cada carro que passava na esperança de conseguir uma garrafa de água ou qualquer coisa para comer.

Outras tentavam desesperadamente pescar em canais onde centenas de cadáveres amontoados apodreciam ao sol, emanando um odor insuportável.

Enquanto isso, doenças infecciosas ameaçam os mais frágeis.

Entre as crianças sobreviventes, uma em cada cinco sofre de diarréia por causa da água contaminada, segundo estimativas da ONU.

O ciclone também pulverizou 3.000 escolas no sul, indicou o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef).

Como se não bastasse, há ainda aqueles que se aproveitam deste cenário de pavor. Traficantes de seres humanos começaram a rondar as áreas atingidas em busca de crianças, e pelo menos dois suspeitos foram presos, informou Anne-Claire Dufay, uma representante da Unicef em Mianmar.

"Um intermediário foi a um abrigo e tentou recrutar crianças", disse à AFP.

Mas "a polícia interveio e efetuou as prisões", assegurou.

Dufay teme entretanto que as crianças refugiadas em abrigos --órfãs ou separadas de seus pais-- possam ser vítimas de maus-tratos.

"Traficantes podem facilmente pôr as mãos em crianças sozinhas e convencê-las de que poderão ter uma vida melhor" fora do país, disse Katy Barnett da Save the Children.

"É uma tática clássica" após uma catástrofe desse tipo, lamentou.

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