Crianças marroquinas deixam as ruas e viram artistas de circo

Laura Casielles Salguei (Marrocos), 17 fev (EFE).- Sob uma tenda azul e branca protegida pelas muralhas argilosas de uma antiga kasbah (as tradicionais medinas islâmicas), 180 crianças e jovens marroquinos resgatados da rua tentam reorientar suas vidas após terem se transformado em verdadeiros artistas de circo.

EFE |

A escola de circo Shems'e, em Salguei (na região de Rabat), é a alternativa que a Associação Marroquina de Ajuda a Crianças em Situação Precária (AMESIP) oferece aos menores para que tenham um futuro.

Fora da pesada porta de madeira encaixada nos muros há casas com pintura precária, uma estrada mal asfaltada, algumas ovelhas.

Dentro, porém, se esconde um mundo inesperado feito de trapézios, acrobacias, malabares e sorrisos infantis.

Cerca de vinte crianças ensaiam sob o olhar atento de um grupo de monitores, que lhes ajudam a subir em barras verticais, a voar sob a lona ou a fazer complicadas piruetas sobre cavalos e trapézios.

Quando param para descansar, as crianças preferem não falar de seu passado, e não gostam que se refiram a eles como meninos de rua.

"Somos artistas, como qualquer outro artista", diz Mosaab, de dezoito anos, que se tornou especialista nas acrobacias sobre argolas após seis meses na escola de circo.

Entretanto, os dados da AMESIP explicam a situação na qual se encontravam estes jovens antes que a associação lhes propusesse a entrar no centro: passavam o dia na rua, sem frequentar escolas, trabalhando com "bicos", viviam doentes, viciados em diferentes drogas ou se prostituindo.

O processo de passar destes malabarismos para os atuais, sob a lona do circo Shems'e, aconteu após encontros com trabalhadores sociais da AMESIP, cujo trabalho consiste em dar nova vida a meninos de rua e crianças exploradas por trabalhos infantis através de seus programas.

A associação tem sete centros de amparo em várias cidades marroquinas, onde as crianças recebem atendimento médico, alimentação, alojamento nos casos necessários, curas de desintoxicação e, aulas especiais que lhes permitem alcançar rapidamente o nível educativo correspondente à sua idade.

Segundo explicou à agência Efe o diretor da AMESIP, Zakaria Benyamina, para criar o circo, a associação contou com a ajuda da Academia Fratellini, sediada na França, que envia periodicamente alguns de seus estudantes para ensinar aos monitores marroquinos novas técnicas.

Hoje, 180 jovens seguem, no Marrocos, uma formação que permitirá que completem os três anos requeridos - e os cursos escolares que também devem seguir paralelamente - e obtenham um diploma que permite que trabalhem como artistas ou monitores de circo.

Seu treinador, Imad Buari, explica que a possibilidade de conseguir este título "vai os incitar a trabalhar mais, a criar companhias entre eles, a criar espetáculos".

Porém, a maioria deles tem agora uma ambição muito mais imediata: preparar o terceiro espetáculo da escola, que a partir de julho será exibido nas ruas de Salguei, com tudo o que aprenderam desde que as deixaram.

Os próprios alunos criam o roteiro. Todos estão empolgados, pensando nas melhores formas de criar novas apresentações, caso de Ismail, especialista em acrobacias com o "diabolo": "Sempre estou procurando novidades. Procuro na rua, em qualquer lugar. Quando estou com meus amigos, se vejo algo diferente, introduzo na cena. É minha vida".

Feliz e realizado, o diretor Benyamina se diz orgulhoso de seus alunos, principalmente pela alegria com que trabalham: "O circo os ajuda a reencontrarem seu equilíbrio, sua confiança em si mesmos e nos outros, na sociedade", explica.

Os problemas cotidianos dos meninos de rua ficam fora da porta. O circo é um lugar seguro. EFE lch/fm

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